Assim como do topo do Monte Negro enxerga-se, bem pequeno, o apartamento de Estela, do apartamento dela mesma, no décimo terceiro andar de um edifício de quatorze, vê-se o topo do Monte Negro. A grande vontade de Estela é experimentar a visão que o monte tem dela, mas, para ela, que não possui nem recursos para subir no humanamente inóspito monte e nem, muito menos, uma câmera filmadora para gravar-se lá de cima e, pelo menos!, ver como sua imagem se afigura na tela, isto é virtualmente impossível.
Estela suspirou, amolengou os braços, anteriormente apoiados na janela da cozinha que dá para o monte, e voltou para o quarto para dormir. O que ela não sabia, nesse momento, é que o monte tinha o mesmo desejo que ela, que suspirou que nem ela e que fechou os olhos, entrou numa negridão ainda maior e dormiu.
Brilhantíssimo nasceu o Sol por trás do nigérrimo monte. Acordaram Estela e o monte ao mesmo tempo com o canto de um galo que foi projetado bizarramente para o alto, numa acústica anormal às leis da física, mas facilmente explicada pelos crentes nas artes mais ocultas. Galo é sagrado, que fique evidenciado. Levantou-se de Solidão. Solidão, paremos aqui e analisemos, não é exatamente aquela de que todos têm conhecimento, apesar de sê-la do mesmo jeito, mas, aqui, temos um outro significado. Que diga, há algo aqui que se chama Solidão por ter características bem parecidas com o sentimento (ou condição, dependendo do ponto de vista). Solidão, por fim, é o nome que Estela deu, inconscientemente, à sua cama. Isto é, ela tem a sensação de solidão ao ver a cama e o nome da cama é, de fato, este, mas Estela não se apercebeu disto ainda. Bom, muito disso é "com ciência", e o caso aqui, como já foi dito, são as artes ocultas, seja lá o que forem elas. O fato é que Estela levantou-se de Solidão e se dirigiu à porta. Solidão, então, ficaria sozinha, se não fosse o cavalo-de-pau que jazia ao lado dela, a coleção de bichos de pelúcia e romances policiais sobre a prateleira, o armário de madeira, a escrivaninha desarrumada e os outros demais pequenos objetos que compõem um quarto, nenhum deles animados, mas todos portadores de lembrança, especialmente o cavalo-de-pau já mencionado. Contudo, esta aí é uma outra história, que não vem ao caso agora, mas, ao certo, virá à tona, pois muito da vida de Estela está relacionado a este cavalo-de-pau.
A hora do café é interessante para Estela, que acende as duas únicas bocas do seu fogão e, numa, cozinha um queijo, assa um pão, ou coisa do gênero, na outra, ela prepara o seu café, forte, porém sem açúcar. Estela fica bem acordada, bem preparada para qualquer trabalho que vier à sua frente, mas ela não trabalha, recebe um dinheiro mensal da Prefeitura, de um processo judicial que ganhou por causa de acidente de trabalho, desde então, vive desse dinheiro, que cobre todas as despesas. Liga o som, onde contém um CD que, quase que imediatamente, toca, retomando o ponto em que estava quando Estela desligara o aparelho.
...
je rêve encore...
Ela se recolhe para o banheiro.
...
il ne faut pas me laisser...
Bate a porta, entra no box e liga o chuveiro. A música, agora, pode ser ouvida bem baixinha.
...
sombrer toute seule, quand je m'ennuie...
Estela sai, enxuga-se e vai para o quarto para se vestir. Em poucos minutos está pronta. Sai.
Esta visita que Estela fez é interessante. Vale a pena ler, mas, primeiro, é necessário uma explicação sobre a geografia de onde ela mora. Pensemos como se fosse o prelúdio de uma história:
O Monte Negro é dividido em três áreas, a saber: área um, ou a área do Lago Negro, um local no pé do monte onde banham-se meninos pobres por diversão, e não por asseio, pois o local é exageradamente sujo; área dois, ou a área cultural, que é onde passa-se a história prestes a ser contada, é um outro local no pé do morro onde encontram-se museus, teatros e cinemas culturais, com exibições fora do circuito comercial; e, finalmente, área três, ou a área residencial, também no pé do monte, onde moram pessoas de classe média baixa, assim como a própria Estela, e onde ergue-se majestosamente grande (mas desengonçadamente projetado) o único edifício da região, de quatorze andares e onde Estela mora. Juntas, as três áreas formam um círculo em torno do Monte Negro e, para os lados, há o resto da cidade, as favelas, os condomínios de gente rica, os mercados, os
shopping centers, os hospitais, os prostíbulos, as casas de jogos, os bares, as sarjetas mais preferidas dos mendigos, uma universidade e tudo o mais que se vê em cidade relativamente grande.
Estela, então, saiu de casa para fazer a sua visita a um museu, um dos mais
undergrounds da região, mas bem ajeitado, bem endinheirado até. O prédio onde mora fica num beco sem saída e ir direto para o museu a faz dar um arrodeio grande, não tão grande ao ponto de que arrodear pela beira do monte que encosta na beira do rio seja mais curto, porém, foi este o caminho que Estela pegou, simplesmente pela paisagem contraditória que presenciava toda vez que por lá passava. Ver meninos vestidos apenas de bermudas sujas se jogando num rio – que deveria ser uma representação da natureza – ainda mais sujo a fazia ter uma sensação esquisita, não boa, mas que gostava de sentir só por sentir. No fim, chegou ao lugar desejado: o museu. Entrou e presenciou uma amostra fantástica, uma exposição de microquadros. Na exposição, haviam mesas espalhadas pelo salão e, em cima de cada uma delas, um microscópio, onde os visitantes punham os olhos e observavam obras de arte atomicamente produzidas por cientistas com veia artística. Estela observou as nove obras expostas, reobservou, reobservou e reobservou até ficar exaurida. As suas telas preferidas foram três, duas delas porque despertaram sensações distintas a cada observação diferente que Estela fazia e, a outra, porque conseguiu despertar nela uma só, persistente, sensação, mais forte que tudo. A que menos apreciou das três foi uma casa de campo, em seguida, foi o retrato de uma moça que segurava um bebê chorão no colo, e aquela por que ela mais se fixou foi a imagem de um cavalo-de-pau numa sala que continha apenas uma cama.
Voltou para casa chorando, os olhos vermelhos e o Monte Negro servindo de paisagem, ao fundo.
O cavalo-de-pau.
O porquê de ela chorar ao ver o microquadro do cavalo-de-pau só pode ser entendido com, no mínimo, uma rápida explicação sobre sua infância.
No mais, ela foi normal. Estela fazia parte de uma família de classe média média, do que pode se dizer que ela desceu um patamar no nível econômico-social, tendo em conta que ela, agora, pertence a classe média baixa, se esse tipo de termo for aceito, e tem que ser nesta história, pois é com ele que ela anda sendo trabalhada e, além do mais, o termo está sendo usado com um único e restrito sentido de consensualidade. Bom, que seja, ela, sim, desceu um patamar nesta área, mas elevou-se a um patamar espiritual ao qual nunca imaginou chegar, mas, assim como ela chegou nele, chegaremos nessa parte da história, que podemos chamar de epifania, mas que, na verdade mesmo, foi uma avalanche da problemática. Por enquanto, nos contentemos com a infância, que é essencial ao caso, um coadjuvante interessante para a trama. A infância normal que Estela teve foi bem divertida. Dos seus pais, não se pode dizer que eles a davam tudo, de fato não o faziam, pois criam que esse não era modo se criar criança, de se criar ser humano, mas é certo que a ela não faltava nada de essencial e que, vez ou outra, ganhava bônus, em aniversários e Natais. Num desses Natais, naquele em que tinha seis anos, ganhou um cavalo-de-pau, a quem deu o nome de Tempo, depois, retificou a escolha e o chamou Vento, mas, por fim, acabou chamando-o de Vendaval, que é um nome mais aventureiro, perfeito para um animal como um cavalo, mesmo que de pau.
Brincou bastante com o cavalinho, pois ela própria tinha um espírito aventureiro e um senso de liderança que lhe vem naturalmente e que a fazia organizar suas bonecas em grupos de expedições em demanda de tesouros. O trauma envolvendo o cavalo-de-pau só viria a ocorrer nove anos depois, quando, em plena adolescência, Estela arranjou um... Bem, há algo mais que não foi contado. Algo extremamente importante para a história, na verdade, é a chave da história. É o seguinte: Estela tinha uma irmãzinha da qual se orgulhava bastante. Aos quatorze anos, enquanto Estela estudava, a menina, de três anos, sempre a observava do outro lado da mesa. Um dia, quando Estela entrou no quarto da irmã, a viu lendo um livro de cabeça para baixo. Ela riu e mostrou para a irmã como era o certo, mas a menina tomou o livro de volta e começou a ler em voz alta, do mesmo jeito como segurava o livro antes. Estela ficou impressionada e, só depois, notou que a menina havia aprendido por si só enquanto observava os exercícios que a irmã mais velha fazia do outro lado da mesa, do lado contrário. Certo, agora, vamos de verdade à história.
O trauma aconteceu quando Estela arranjou um namorado. Daí em diante, ocorreu uma série de eventos comicamente trágicos, e a parte cômica, quando se repara bem, no final das contas, é triste. Com quinze anos, a pessoa já se sente na responsabilidade de fazer coisas para que talvez não esteja preparada. Com quinze e um namorado, Estela, desajeitada e inocente como era, decidiu transar com o namorado. É certo que foi mais uma decisão dele do que dela, mas ela acatou-a passivamente e até ofereceu o seu próprio quarto, no meio da tarde, enquanto seus pais estavam no trabalho e sua irmã tirava a sua soneca vespertina, para realizarem a primeira cópula de suas vidas. O rapaz, que já tinha dezesseis e um buço que parecia próspero, apareceu na casa dela pontualmente. Os dois foram para o quarto e começaram a se beijar deitados na cama, mas, uma brisa bateu e o cavalo-de-pau, que ficava ao lado do leito e que tinha os pés interligados como uma cadeira de balanço, começou a balançar. O rapaz olhou, fez cara de que não se importava e voltou a cuidar dos seus affaires, porém, novamente, uma brisa bateu e o cavalo balançou. Ele parou mais resolvido desta vez, levantou o corpo com os braços e passou um olhar periférico pelo quarto. Viu uma prateleira repleta de romances policiais, um armário de madeira, uma escrivaninha e outros objetos, tudo bem adulto, exceto pelo cavalo-de-pau, tão infantil. E o rapaz não suportava o infantil. "Você é muito menina", disse então a ela. "Mas, o quê?", respondou Estela. "Esse cavalo... é infantil". "É meu cavalo". "É besta". "Você acha?". "Eu sei". "É... acho que já não faz mais sentido guardá-lo mesmo, vou dar para a minha irmã depois". Falado isto, ela deu vários beijos no rapaz, como que fazendo menção de voltar para o que estavam a fazer, mas ele disse: "Agora, não suporto olhar esse cavalo balançando aí do lado mais do que eu vou balançar em você". Estela olhou assustada, interpretou o que ele disse como uma piada, até riu desconcertadamente, mas, enfim, notou que ele havia falado aquilo de uma forma um tanto rude. Mesmo assim, foi à porta da irmã, que não acordaria até meia hora mais tarde (tempo até demais para o rapaz terminar o seu serviço, se arrumar, comer alguma coisa da geladeira, cochilar no sofá e voltar para casa), escreveu um bilhete num daqueles bloquinhos amarelos oferecendo-lhe o brinquedo e colou-o virado de cabeça para baixo na testa do cavalo. Voltou para o quarto, entregou-se, esperou o rapaz se arrumar, acompanhou-o até a cozinha para ele se servir de algo para comer, permitiu que ele cochilasse no sofá e abriu a porta para ele quando ele saiu, deu-lhe um beijo, combinou com ele que se veriam em dois dias, voltou para a sala, deitou-se no sofá e, quando ela mesma ia começar a cochilar, ouviu os gritos afetados de alegria da irmãzinha, que lera o bilhete e já cavalgava. Estela, então, foi até a irmã, deu-lhe um beijo e perguntou se ela não queria ajuda para carregar o brinquedo para dentro do quarto, a menininha disse que era forte, mostrou o muque e arrastou, se esforçando um pouco, o cavalo para dentro do quarto. Estela, então, foi pôr alguma comida numa panela para cozinhar, quando o fez, o telefone tocou e ela foi atendê-lo. Era o seu namorado, que disse que não queria mais vê-la, ainda a achava infantil, e ainda disse que ela era ruim na cama. Chateada, ela correu para o quarto, trancou-o e pôs uma música alta para ouvir, cobriu-se até a cabeça nos lençóis e, de tanto chorar, acabou dormindo. Quando acordou, a casa estava pegando fogo. Correu para a o quarto da irmã e a viu arrastando o cavalo-de-pau para fora do quarto. Ela pegou a menina pelos braços e correu para fora, mas a menina continuou gritando pelo cavalo-de-pau, então, ela deixou a menina fora de casa e voltou para pegar o cavalo. Estela voltou com o cavalo, mas queimou-se nas costas, fazendo uma queimadura perfeitamente redonda de quinze centímetros de diâmetro.
A casa, cuja estrutura era toda de madeira, ao estilo de casas suburbanas americanas, muito na moda entre a classe média desta cidade na época, foi a baixo e, observando o acontecimento sob uma dor excruciante, ela viu surgir, por trás do que restou da sua casa, o Monte Negro, belíssimo no crepúsculo. Horas mais tarde, Estela descobriria que não foi a comida no fogão que provocara o incêndio, mas a curiosidade da irmã superdotada, brincando com fósforos. De toda forma, Estela se sentiu culpada, pois deveria estar vigiando a menina.
Então, esse foi o evento que traumatizou Estela para sempre. Dois anos depois, a sua irmã enjoaria do cavalo-de-pau, pois se interessaria ainda mais em ler, e ela o reaveria. A queimadura de Estela foi cuidada, pois, pouco depois do incêndio, uma ambulância, chamada pelos vizinhos, levou-a ao hospital. Duas marcas ficaram.
Em casa, Estela, com os olhos ainda vermelhos, ficou de frente para o longo espelho grudado à porta do seu armário. Torceu o corpo para o lado e tentou manter, ao máximo, a cabeça onde estava. Viu um terço da sua queimadura e sentiu-se perdoada por si mesma. Perdoou-se pelo fato de seus pais terem que comprar uma nova casa e viverem por muitos anos pagando-a, pois, pensou bem, "eles não tinham seguro. Poderiam, muito bem, ter evitado isso". Quanto àquilo que era pessoal e que foi perdido, também perdoou-se, o dia estava para isso. Perdoar.
Mas essa não era a história da vida de Estela. Houve, ainda, fatos mais marcantes, mas aquele era o único que deixara um objeto vivo – inanimado, mas vivo, de fato – para contar a história, todos os dias, até este último do qual falamos, no ouvido de Estela.
O que acontece é o seguinte: às vezes, não se consegue o que se quer. Estela queria, sempre quis, ser uma escritora de romances policiais à brasileira, de crime tupiniquim, mas o mais perto que chegou disto foi ser taquígrafa. A técnica da taquigrafia é muito interessante. Os taquígrafos são pessoas treinadas em um método que as permite escrever rapidamente, utilizando-se de símbolos especiais, que representam fonemas, e não letras. Estela trabalhava nisto, na Câmara Municipal da sua cidade, aquela em que nascera e que abrigava o majestoso Monte Negro, íngreme, alto, imperante, mas complacente.
Um dia – e, sim, esta é a história de como ela conseguiu a pensão vitalícia por meio da indenização. Vitalícia, pois sim! –, Estela acordou, fez, como de costume – e este costume, como bem sabemos, não iria esvanecer – seu café-da-manhã, incluindo o café forte que tomava sem açúcar, e saiu para o trabalho, tão acordada como qualquer outro dia. Chegou ao trabalho, na Câmara Municipal. Aqui, é preciso que se faça uma pausa para analisar o prédio da Câmara. É, de fato, necessário.
A cidade em que Estela mora, como já foi dito, é relativamente grande e, apesar dos problemas tão comuns em cidades deste porte, ela é estruturalmente bem arrumada, um pouco segregadora, mas bem arrumada. Cerca de trinta anos antes, os vereadores da cidade tiveram uma reunião de extrema importância. Tratava do crescimento desenfreado da cidade. Algo precisava ser feito, e o prefeito não se movia, então, os próprios vereadores se mobilizaram e forçaram o prefeito, através de um decreto, a reformar a cidade. O prefeito deu carta branca para os vereadores, em conjunto, cuidarem do projeto, mas este era, mesmo assim, uma obra atribuída ao Executivo. Eles, então, contrataram um engenheiro civil e arquiteto filho de um americano com uma brasileira e formado na Universidade não-sei-das-quantas nos Estados Unidos da América, segundo ele mesmo, o melhor país do mundo (por que não vai morar lá, então?). Este engenheiro-arquiteto, jovem e entusiasmado com o cargo que ganhara, decidiu criar uma região destinada à classe baixa, portanto, mais na periferia da cidade, relativamente perto do Lago Negro, criou uma grande “favela”, e uma região destinada à classe média média e alta e tirá-las da confusão de edificações, já que reformar o centro histórico da cidade, perto do monte, daria muito trabalho. Sobrou, então, para a classe média baixa, o centro histórico da cidade, junto ao Monte Negro, ao Lago Negro e à área cultural. Foi nessa época que os pais de Estela compraram uma casa na área das classes média média e alta. Essas casas, como já foi apontado, são feitas de madeira. Um número considerável delas, e não só a de Estela, incendiou, a maioria por causa do descuido dos moradores.
Pois bem, a respeito da Câmara, que neste processo não foi esquecida, o engenheiro-arquiteto criou um projeto magnânimo, faraônico!, para um novo prédio, em retribuição ao cargo oferecido a ele pelos vereadores. Contudo, muito dinheiro estava empregado na reformulação da cidade, mas isso não impediu os vereadores, ávidos para terem um novo local de trabalho, de tentar construí-lo.
O dinheiro que arranjaram quase deu, mas houve uma parte do teto que ficou inacabada, sendo, depois, terminada com material de pior qualidade. É aí que se volta à história de Estela.
A parte terminada com material de baixo custo ficava justo em cima do palquinho que suportava os dois taquígrafos que trabalhavam anotando reuniões importantes da Câmara.
Estela, quando chegou ao trabalho, cumprimentou a todos, tomou um copo d'água, foi pegar seu material de trabalho e, em seguida, subiu no palquinho e sentou-se diante de uma mesa, ao lado do seu colega, que, imediatamente, se lembrou que havia esquecido algo e se levantou e saiu. Neste momento, um pedaço de madeira de um metro e meio de comprimento caiu na mesa de Estela, em sua mão direita.
Criou-se um pânico, chamou-se um médico e, em pouco tempo, lá estava um, tratando dela. Levou-a para o hospital, tirou uma radiografia e teve que engessar a mão.
Alguns meses depois, ela tirou o gesso, mas descobriu que não podia mais mexer os dedos médio e mindinho, que ficaram rígidos. Estela não podia mais trabalhar como taquígrafa, pois perdera a mobilidade de dois dedos, essencial para a arte da rápida escrita.
Então, Estela entrou em processo contra a Câmara, que passou para a prefeitura, responsável legal da construção do prédio. Daí então, muitas coisas aconteceram, coisas difíceis de explicar quando não se é um advogado. Estela, por fim, ganhou sua modesta pensão vitalícia, que a permitia viver tranqüilamente sem trabalhar, mas sem muita regalia.
Após ter-se perdoado, Estela foi deitar-se na cama. Havia uma coisa, que diga, um homem, que não podia perdoar. Uma frase corria a sua cabeça de cima a baixo, de um lado para o outro, traçando, invisivelmente, linhas que formavam os mais incomuns poliedros hipotéticos e cerebrais que já se havia visto: "beleza é estado, não qualidade".
Foi com estes dizeres que um homem de quarenta anos abordou a jovem Estela, de apenas dezenove anos e meio naquela época, enquanto ela penteava os cabelos em frente a um vidro que refletia sua imagem.
"Como!?", foi o que respondeu Estela, que havia ouvido a frase, mas não a compreendido inteiramente. "Beleza é estado, não qualidade", repetiu o homem, dando mais ênfase às palavras, mas, ao mesmo tempo, sabendo que ela, novamente, não compreenderia. "Não entendi. O que você quer dizer com isso?". "Que beleza é estado, não qualidade", disse o homem pela terceira vez. Saiu. Encontrariam-se, os dois, quatro dias depois, quando Estela já havia entendido o que o homem quis dizer com aquilo.
Naquele dia, no dia em que se encontraria com o homem, Estela pôs sua mochila nas costas e saiu montada numa bicicleta da pequena casa em que, naquela época, vivia com os pais. Ia à universidade, onde estudava Letras, quando desgovernou-se e, antes que caísse de cara no chão, aquele homem que havia encontrado quatro dias atrás pegou-a, aparecendo do nada. Seu nome não será mencionado, em respeito a Estela, que não gostaria de lembrar-lhe, mas, naquele momento, seu nome era tudo que ela queria saber, até ele rudemente abrir a boca. "O estado da sua beleza ia mudar drasticamente". Era um elogio mascarado, mas Estela não viu desta forma e voltou para a sua bicicleta, com a cara fechada, já não querendo mais saber seu nome, mas ele interveio mais uma vez, com um arranjo de flores. Explicou que havia visto-a duas vezes passando por ali aquela hora e decidiu comprar-lhe flores e esperá-la passar alguma hora, para que as pudesse entregar-lhe. O homem levantou as flores em direção à moça, oferecendo-as. Estela, confusa, pensou se pegava, ou não, as flores, até que notou que havia se calado por um tempo considerável para deliberar, então, terminou por aceitar as flores, agradecendo-o com um sorriso tímido de espremer de satisfação o coração de qualquer pretendente, por mais
Don Juan que fosse. Pôs os caules das flores para dentro da mochila, deixando à mostra as pétalas. Subiu na bicicleta e saiu em direção à universidade, sol a pino e vento forte, numa cena digna das mais belas peças da fotografia.
Para entender as intenções do homem com a entrega do arranjo de flores, é preciso retroceder no tempo em quatro dias, para o dia em que ele a viu pela primeira vez.
O homem estava passeando no
shopping center que ficava na parte cultural da cidade, junto ao Monte Negro. Observava, de longe, uma garota virtuosa que contemplava o monte através do teto transparente do
shopping. Em seguida, notou que ela virou para uma vitrine, puxou um pente da mochila que carregava nas costas e começou a pentear os cabelos. O homem lembrou-se de uma história que havia ouvido do seu avô, mas que era mentira pura, e ele nunca descobriu isso. O seu avô contou-lhe que aquele Monte, num tempo remoto, era chamado de Monte do Sol, pois todas as suas árvores enchiam-se de flores amarelas no verão. "Lindo, o Monte, meu neto, só você vendo. Hoje em dia... ele é impiedoso, olha-nos com aquele ar misterioso, que nos dá a impressão que vai comer-nos, como um buraco negro". Então, o homem pensou no hoje-em-dia por que passava e percebeu que as coisas mudavam. Resolveu alertar a moça. E foi o que fez. Depois de tê-lo feito e notado a reação confusa típica dos jovens, voltou para casa querendo mudar também, mas junto com aquela moça.
Dois dias após, caminhando para o trabalho, viu a moça passando de bicicleta. No dia seguinte, o mesmo aconteceu. No dia que sucedeu a este, decidiu esperá-la com flores na mão para dizer-lhe que gostaria de conhecê-la, sair com ela, beijá-la, casar com ela...
Foi a um florista. Começou a olhar as flores. Como eu não conhecia nada de flores, perguntou para o vendedor que flor era aquela – e apontou para uma flor azul, belíssima. O vendedor disse o nome, que depois o homem esqueceu, e disse que cada flor tinha um significado. "Esta, por exemplo, é uma flor para dar para doentes". O homem não se importou, achou bela e resolver pô-la no arranjo. Apontou para outra, mais escondida num canto. O vendedor disse que era flor para se dar em ocasião de morte. O homem adicionou-a também ao arranjo, a florzinha branca acinzentada. Escolheu, então, da loja, mais uma porção de flores com significado soturno, todas elas belas à sua maneira e foi esperar no canto da estrada onde havia visto Estela passar.
Estela passou, caiu e ele a pegou. Quando suas mãos tocaram o corpo da moça, achou que um calor subiria por elas e esquentaria o seu corpo, dando-lhe uma sensação de conforto e alegria que o retornaria à infância numa memória das mais edipianas, mas o contrário ocorreu. Sentiu um desalento. Resolveu, de toda forma, elogiá-la do jeito rude que só ele sabia fazer e, ainda, oferecer-lhe as flores. A demora dela para aceitá-las não despertou no homem nenhum sentimento, muito menos o sorriso que ela deu. Nada disso o afetou, estava desencantado. Percebeu que só tinha por ela atração física e resolveu, "já que estava lá mesmo", aproveitar para conquistá-la e levá-la para a cama. Estela pôs as flores na mochila e seguiu pedalando. O homem olhou aquela cena amarela de linda acontecer e não se comoveu, somente disse para si mesmo: "essa já tá pegada".
Sentia-se no direito de abusar dela. Segundo sua própria mente: ela havia-o desiludido
Durante o caminho que percorria para chegar à universidade, Estela foi percebendo que estava mais apaixonada pelo homem desconhecido do que usualmente se permitia fazê-lo e, entrando na sala de aula, esperando pelo dia de amanhã, quando provavelmente o veria na rua, sorriu e sentiu-se agoniada ao mesmo tempo.
No dia seguinte, de fato, sem combinarem, encontraram-se no mesmo lugar que no dia anterior. É certo que Estela chegou mais cedo, percebeu que o homem não havia chegado ainda, deu meia volta e se afastou alguns muitos metros, em seguida, retornou pedalando para o mesmo local, para parecer que aparecia casualmente. É certo também que ela repetiu o processo três vezes, até dar de cara com o homem.
Este terceiro encontro foi executado em cima de seduções pelos dois lados. Por parte de Estela, a sedução era sensual e, ao mesmo tempo, amorosa e, por parte do homem, canalha.
Estela faltou à aula e eles foram ao apartamento dele. Lá, o homem disse a ela que a amava. Nem precisava disso, a garota já iria transar com ele mesmo e ele sabia. Fê-lo mais como uma diversão sádica. Ao ouvir o que ele dissera, Estela vivenciou uma sensação particular, que já havia sentido outras poucas vezes: por um instante, suas narinas arderam por dentro, seu olho ficou molhado de lágrimas que não cairiam – não agora –, sua boca, involuntariamente, deu um sorriso meio fisgado e seu coração girou como um peão, com exceção que ele parecia que nunca iria parar. Beijou-o e fez amor com ele, enquanto ele fodia com ela.
Passaram-se meses, eles se encontrando na rua e indo para o apartamento do homem. Estela repetiu o período que cursava na universidade. O homem, enquanto não encontrava "nada melhor", continuou encontrando-se com ela.
O homem não queria arcar mais com os custos de transar com a mocinha, já não bastava o abuso, ele queria lucrar com isso. Disse a ela que estava passando por maus bocados e que não poderia mais se encontrar com ela, pois não tinha o dinheiro de ficar levando ela para a sua casa para comer e dar-lhe flores de quando em quando. Disse que estava prestes a ser despejado de seu apartamento se não arranjasse dinheiro em alguns meses. Estela, preocupada, quis ajudá-lo desesperadamente. Ele, então, mostrou-lhe um curso para formação de taquígrafos, oferecido de graça pela Câmara Municipal, que precisava de profissionais. O curso durava apenas dois meses e tinha cinco vagas a serem preenchidas. O melhor dos alunos ganharia uma bolsa. Estela concordou na hora em fazer o curso e, em dois meses já trabalhava na Câmara. Para isto, teve que largar a universidade.
Um ano se passou e o homem se sustentava do dinheiro da moça, que insistia em morar na casa dele, mas ele dizia que eles não estavam ainda prontos para algo assim e que ela era sustentada pelos pais e que o dinheiro que ela dava para ele mal dava para cobrir as despesas, avalie com mais uma pessoa morando com ele.
Mas há uma hora que a paciência estoura e, quando se começa a trabalhar, perde-se um pouco da inocência, pois vê-se o mundo mais como o mundo é. Estela, então, notou que estava sendo, de fato, roubada. Chorou muito e contou tudo para seus pais, tudo!, que tinha saído da universidade, que vinha se encontrando com esse homem etc. Então, seu pai, advogado, propôs que ela entrasse com uma ação na justiça para conseguir o dinheiro de volta e, caso ele não tivesse, o seu apartamento, que Estela vinha freqüentando há pouco mais de um ano. Foi isso, então, que ela fez e, depois de muita briga na justiça, onde adquiriu uma certa esperteza judicial que a ajudaria no caso do dedo quebrado, Estela conseguiu o apartamento do homem, que era, exatamente, aquele em que ela mora até hoje, em frente ao Monte Negro.
Mas não acabou assim, nessa história, algo mais aconteceu...
O homem recebeu uma medida cautelar, mas não deixou isso tudo passar em branco.
Numa noite, ele foi, com uma chave reserva que conservava, ao apartamento que antes podia chamar de seu. Chegou ao décimo terceiro andar e pôs a chave na fechadura, tentou girá-la uma vez, o suficiente para tomar consciência de que Estela havia trocado de fechadura. Então, deu uns três passos para trás e se projetou em direção à porta a fim de preterir a barreira daquilo que considerava inadmissível.
O barulho da colisão acordou Estela, que dormia no sofá da sala, pois não queria fazê-lo na cama onde construíra ilusões. De súbito, ela levantou-se e deu de cara com o homem, que já segurava um canivete armado e partia para cima dela, que desviou pulando no chão. Houve, então, uma luta tão embaraçosa que é difícil de descrever, pois o homem estava, na verdade, bêbado, e Estela, ébria de sono. O que se pode contar é o produto dessa briga, que foi um corte de um palmo na perna de Estela e uma queda de treze andares do embriagado homem, que, claramente, perdeu o combate para a delicada Estela. Ela chamou polícia e ambulância e esperou tudo se resolver. E tudo se resolveu eventualmente.
Da janela da cozinha, Estela não olhava agora o Monte Negro, olhava para baixo, para o pátio do prédio onde morava. Foi novamente ao espelho, olhou a cicatriz na perna, olhou, de novo, a queimadura, tentou mexer os dedos imóveis e pensou que as cicatrizes são lembranças muito piores que objetos, como o cavalo-de-pau, pois, deles, podemos nos desfazer, nos afastar, podemos queimá-los e destruí-los - é certo que sempre algo fica, mas há um certo alívio em despojar-se de algo concreto, mesmo que algo abstrato permaneça. Quanto às cicatrizes, elas ficam, no concreto e no abstrato, o importante mesmo é aprender a conviver com isso, como a moça acabara de fazer (cá está a epifania).
Estela voltou para a janela e olhou para cima, mas não para o Monte Negro, e muito menos para o céu. Olhou para cima, e só.