segunda-feira, 5 de outubro de 2009

- suma!

"Vá-se e não volte-se!"
Assobiando melancolicamente, viu a moça se afastar. Não a veria mais. E foi aí - e só aí -, enquanto ela sumia, que pegou fogo, o coração de Nero. Não que antes, quando se amavam, não ardesse, seu peito. Contudo, ardor e labareda são coisas diferentes. Picância não derrete corações.
Então, então... o coração de Nero derreteu, mas para que seu peito tivesse ainda algo para carregar (condição essencial para se viver) , o fogo tomou conta do recôndito de si. Virou bicho. Uma onça, se não me engano.
A história, contudo, não se trata disso - do que ele virou - mas do que aconteceu para que ele virasse a besta. E começando-a do fim, é evidente - não evidente, tudo bem, admito, mas dedutível - que se termine pelo começo. A história é, portanto, virada de cabeça para baixo. Da mesma forma como começa a cena a seguir:
***
Fazendo ioga, Nero se sentia bem. Toda aquela raiva que, usualmente, vivia alojada em seu corpo se dissipava para o alto. Saiu da posição em que se encontrava e a moça chegou, enxugou-lhe a testa com um lenço que carregava no bolso, beijou-lhe no mesmo lugar e se deslocou para a cozinha. Fazia-o sempre. E este era um dos principais motivos pelo qual ele praticava aquela arte de meditar através das posições do corpo, não obstante ter começado a fazê-la antes de ter conhecido a moça. Lembrou-se, também, da única vez em que meditar não lhe foi ato benigno. E foi justo assim que conheceu a moça.
- Se lembra como a gente se conheceu?
Não obteve resposta. Levantou-se e foi procurá-la na cozinha. Não encontrou ninguém. Passeou pela casa e nada. Não se desesperou, começou a assobiar sua música favorita, uma bela e triste canção que seu avô lhe ensinara. Foi até a janela e viu, três andares abaixo, a moça caminhando em direção ao ocaso sem nada nas mãos ou nas costas. Esfregou os olhos para ver melhor, pois achava que, também, ela não levava nem as roupas do corpo - como ela mesma afirmara que faria no dia em que se conheceram. Mas não... vestia um vestido. Nem tudo que falara era verdade, ela era muito hiperbólica, inventava essas histórias para que, num futuro mais distante, ele se lembrasse dela como ela contara que era - e foi o que aconteceu, mas no futuro, que não é agora. Na realidade, o findo, o porvir ou o agora é quando o narrador quer que seja. Na linha do tempo, desliza livremente o contador de histórias. Isto será provado.
***
Era o auge da sua felicidade! Era passarinho, sem saber que viraria onça (conquanto seria mais interessante pensar que lhe engoliu, a onça). Ele e a moça se encontravam às escondidas três vezes por semana, a saber: terça, quinta e sábado (segunda e quarta, ela praticava pilates; domingo, ele passava o dia na casa dos pais; e sexta... sexta era um mistério que ele nunca conseguiu solucionar). Não que alguém os pudesse estar vigiando, haviam combinado que, desta forma, era mais excitante.
Estavam num de seus encontros ocultos, num lugar cujo apelido dado pelos amantes era "Toca". O local, realmente, não era mais que uma morada de rato - nem em asseio, nem em espaço. A única coisa limpa no recinto eram os lençóis cegamente brancos que a moça trazia, até o sexo era repreensivelmente sujo. E foi após o coito, quando estavam os lençóis encharcados de suor e imundos de comida de forma que nenhum dos dois se atreveram a comer após o que delas foi feito, que Nero reparou de verdade o quarto. Desta vez seus olhos, miraculosamente, podiam enxergar além do brilho dos panos desarrumados e do êxtase do sexo tresloucado. Sempre soube que o lugar não era limpo, mas desta vez notou que estavam, de fato, enfiados num buraco malcheiroso e vil. Olhou a moça que, como de praxe, dormia pesadamente após a transa. Imaginou-a morta, seu corpo despojado num lixo pela máfia, pagando o amor com uma morte. Olhou-a novamente e quis se desculpar, mesmo não a tendo dito nada. Viu como dormia e sentiu que a única forma de contrariar o que ela havia dito quando se encontraram era sempre transá-la fortemente sempre que acordava, pois sabia que, em seguida, ela não iria a lugar algum. Nero, então, examinou-se reflexivamente e assentiu que seu corpo semi-quadragenário não aguentaria a empresa por muito tempo se se seguisse assim o ritmo.
Acordando-a, propôs-lhe, então, que não voltassem a se encontrar naquela cova de gambá, mas em sua casa. Explicou-lhe que a relação deles já havia passado daquilo de encontros às escondidas e que "não adianta retrucar que o 'encanto' vai ser perdido. Será se continuar assim. Isto aqui já é rotina, e rotina não é aventura. Agora, só navego em outras águas". Olhou o rosto da moça - começara a aprender a lê-la. Detectou: a) dúvida; b) agitação; c) um brilho caleidoscópico luzindo dos seus olhos cujo sentido obscuro acabou por se provar - paradoxalmente - indetectável.
- Que tal se, em vez de navegarmos, déssemos um salto? Que tal se eu for morar na sua casa?
Creio que este foi o modo que ela encontrou de fazer uma decisão "ao seu estilo" ao mesmo tempo em que não magoava o pobre homem que via sentado numa cama com nada mais do que sujeira à sua volta. Viveram juntos por seis anos, até o som do assobio encaminhar a moça ao pôr-do-sol do futuro e o desencontro descer forte o seu machado sobre os caminhos dos amantes.
***
Suam. Os dois. Pois esta é uma reação mais do que natural ao ato que cometem neste instante, neste exato instante, que não escolhi narrar, mas observar. E o que lêem os leitores é - nada mais! - que o reflexo do que vêem meus olhos. O ponto culminante chega, eles gritam e ela desmonta o cavalo de um metro e noventa e três (não encolheu quando virou onça, continuou grande como é). Nero é um rapaz sensível e está para dizer à moça que acabou de conhecer que a amava, já. Parte do que fala já saiu da sua boca, mas nota que a moça está dormindo e que falar aquilo vai soar estúpido, então, neste instante, estica o braço, mas não consegue pegar o "eu te..." no ar. Agradece ao deus em que acredita por não ter dito "...amo" e o amaldiçoa por não ter-lhe dado melhor reflexo. Nota que a moça não imprime reação às duas pequenas palavras e fica feliz. "É melhor esperar, para não assustá-la, mas não há mulher que fuja de um amor assim", pensou.
***
Mais do que tudo, irritou-se. Flamejou! Não conseguiu se conter. Explodiu! Tornou-se um vermelho só! Estava nos últimos minutos da sessão de ioga, posicionava-se com a cabeça tocando o chão e os pés balançando no ar e levou uma queda. Tudo isso aconteceu pois vira uma moça que podia fazer mugangas físico-corporais mais estrambólicas e matutantes que as dele. Vira uma paz na face dela que só podia ser combatida com fogo. Caiu, então. Mas, aí, uma nova temperatura lhe tomou conta e o coração de Nero fogueteou pelo salão e foi parar não-sei-onde (ele retornaria em seguida, mas da próxima vez que ele desaparecesse, não voltaria mais).
A aula acabou. Nero viu a moça saindo por uma porta que nunca havia percebido. Correu para alcançá-la. Saiu pela porta e deu num beco tão sujo como a "Toca", viu a moça, nem a dois metros dele, esticou o braço, deu um longo passo à frente - quase um pulo - e a tocou nos ombros. Ela não se assustou, não gritou e, além do giro que deu para pôr-se face-à-face com Nero, não estampou reação nos movimentos. Permaneceram olhando um para o outro por não se sabe quanto tempo. Coube à moça quebrar o gelo:
- Eu não tenho problema algum em você me querer. Saiba, só, que eu sou suçuarana.
E agora aconteceu o fim, e é bonito!, e este narrador recua no tempo, pois quer presenciar a cena ao vivo.
Posso vê-los se beijando, neste instante mesmo. Vejo-os de longe, como que através do olhar furtivo de uma câmera escondida. E o silêncio horroroso...! O silêncio pressiona a imagem. Dentro dos seus corpos, forma-se um vácuo. E ele treme, de cima a baixo. Pensando bem, na realidade, da base ao cume. E ela fecha os olhos e, como toda mulher, se faz de experiente, faz o homem pensar que está sendo ensinado na melhor das didáticas. E o corpo dele está parado no lugar, mas sua mente corre em direção ao tempo em que estudava e, não conseguindo frear, passa direto e vai parar no carinho materno, e sente, quase que inevitavelmente, o gosto do leite. Volta mais no tempo e nada tranqüilamente no líquido amniótico, até culminar num orgasmo de paixão. E este orgasmo se confunde com o prazer enorme de beijar a moça, e pensa que os homens são os mais inseguros seres do universo, e ainda bem que existem mulheres!, que lecionam a gente mesmo sem saber o que ensinam. Estão sempre nos confortando. E a moça mais do que conforta, inspira, lava a alma. Nero descola seus lábios dos lábios dela e arrasta uma palavra, bem baixo, sem querer que ela entenda:
- Musa.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

a vista do Monte Negro

Assim como do topo do Monte Negro enxerga-se, bem pequeno, o apartamento de Estela, do apartamento dela mesma, no décimo terceiro andar de um edifício de quatorze, vê-se o topo do Monte Negro. A grande vontade de Estela é experimentar a visão que o monte tem dela, mas, para ela, que não possui nem recursos para subir no humanamente inóspito monte e nem, muito menos, uma câmera filmadora para gravar-se lá de cima e, pelo menos!, ver como sua imagem se afigura na tela, isto é virtualmente impossível.
Estela suspirou, amolengou os braços, anteriormente apoiados na janela da cozinha que dá para o monte, e voltou para o quarto para dormir. O que ela não sabia, nesse momento, é que o monte tinha o mesmo desejo que ela, que suspirou que nem ela e que fechou os olhos, entrou numa negridão ainda maior e dormiu.

Brilhantíssimo nasceu o Sol por trás do nigérrimo monte. Acordaram Estela e o monte ao mesmo tempo com o canto de um galo que foi projetado bizarramente para o alto, numa acústica anormal às leis da física, mas facilmente explicada pelos crentes nas artes mais ocultas. Galo é sagrado, que fique evidenciado. Levantou-se de Solidão. Solidão, paremos aqui e analisemos, não é exatamente aquela de que todos têm conhecimento, apesar de sê-la do mesmo jeito, mas, aqui, temos um outro significado. Que diga, há algo aqui que se chama Solidão por ter características bem parecidas com o sentimento (ou condição, dependendo do ponto de vista). Solidão, por fim, é o nome que Estela deu, inconscientemente, à sua cama. Isto é, ela tem a sensação de solidão ao ver a cama e o nome da cama é, de fato, este, mas Estela não se apercebeu disto ainda. Bom, muito disso é "com ciência", e o caso aqui, como já foi dito, são as artes ocultas, seja lá o que forem elas. O fato é que Estela levantou-se de Solidão e se dirigiu à porta. Solidão, então, ficaria sozinha, se não fosse o cavalo-de-pau que jazia ao lado dela, a coleção de bichos de pelúcia e romances policiais sobre a prateleira, o armário de madeira, a escrivaninha desarrumada e os outros demais pequenos objetos que compõem um quarto, nenhum deles animados, mas todos portadores de lembrança, especialmente o cavalo-de-pau já mencionado. Contudo, esta aí é uma outra história, que não vem ao caso agora, mas, ao certo, virá à tona, pois muito da vida de Estela está relacionado a este cavalo-de-pau.

A hora do café é interessante para Estela, que acende as duas únicas bocas do seu fogão e, numa, cozinha um queijo, assa um pão, ou coisa do gênero, na outra, ela prepara o seu café, forte, porém sem açúcar. Estela fica bem acordada, bem preparada para qualquer trabalho que vier à sua frente, mas ela não trabalha, recebe um dinheiro mensal da Prefeitura, de um processo judicial que ganhou por causa de acidente de trabalho, desde então, vive desse dinheiro, que cobre todas as despesas. Liga o som, onde contém um CD que, quase que imediatamente, toca, retomando o ponto em que estava quando Estela desligara o aparelho.
... je rêve encore...
Ela se recolhe para o banheiro.
... il ne faut pas me laisser...
Bate a porta, entra no box e liga o chuveiro. A música, agora, pode ser ouvida bem baixinha.
... sombrer toute seule, quand je m'ennuie...
Estela sai, enxuga-se e vai para o quarto para se vestir. Em poucos minutos está pronta. Sai.

Esta visita que Estela fez é interessante. Vale a pena ler, mas, primeiro, é necessário uma explicação sobre a geografia de onde ela mora. Pensemos como se fosse o prelúdio de uma história:
O Monte Negro é dividido em três áreas, a saber: área um, ou a área do Lago Negro, um local no pé do monte onde banham-se meninos pobres por diversão, e não por asseio, pois o local é exageradamente sujo; área dois, ou a área cultural, que é onde passa-se a história prestes a ser contada, é um outro local no pé do morro onde encontram-se museus, teatros e cinemas culturais, com exibições fora do circuito comercial; e, finalmente, área três, ou a área residencial, também no pé do monte, onde moram pessoas de classe média baixa, assim como a própria Estela, e onde ergue-se majestosamente grande (mas desengonçadamente projetado) o único edifício da região, de quatorze andares e onde Estela mora. Juntas, as três áreas formam um círculo em torno do Monte Negro e, para os lados, há o resto da cidade, as favelas, os condomínios de gente rica, os mercados, os shopping centers, os hospitais, os prostíbulos, as casas de jogos, os bares, as sarjetas mais preferidas dos mendigos, uma universidade e tudo o mais que se vê em cidade relativamente grande.

Estela, então, saiu de casa para fazer a sua visita a um museu, um dos mais undergrounds da região, mas bem ajeitado, bem endinheirado até. O prédio onde mora fica num beco sem saída e ir direto para o museu a faz dar um arrodeio grande, não tão grande ao ponto de que arrodear pela beira do monte que encosta na beira do rio seja mais curto, porém, foi este o caminho que Estela pegou, simplesmente pela paisagem contraditória que presenciava toda vez que por lá passava. Ver meninos vestidos apenas de bermudas sujas se jogando num rio – que deveria ser uma representação da natureza – ainda mais sujo a fazia ter uma sensação esquisita, não boa, mas que gostava de sentir só por sentir. No fim, chegou ao lugar desejado: o museu. Entrou e presenciou uma amostra fantástica, uma exposição de microquadros. Na exposição, haviam mesas espalhadas pelo salão e, em cima de cada uma delas, um microscópio, onde os visitantes punham os olhos e observavam obras de arte atomicamente produzidas por cientistas com veia artística. Estela observou as nove obras expostas, reobservou, reobservou e reobservou até ficar exaurida. As suas telas preferidas foram três, duas delas porque despertaram sensações distintas a cada observação diferente que Estela fazia e, a outra, porque conseguiu despertar nela uma só, persistente, sensação, mais forte que tudo. A que menos apreciou das três foi uma casa de campo, em seguida, foi o retrato de uma moça que segurava um bebê chorão no colo, e aquela por que ela mais se fixou foi a imagem de um cavalo-de-pau numa sala que continha apenas uma cama.
Voltou para casa chorando, os olhos vermelhos e o Monte Negro servindo de paisagem, ao fundo.
O cavalo-de-pau.

O porquê de ela chorar ao ver o microquadro do cavalo-de-pau só pode ser entendido com, no mínimo, uma rápida explicação sobre sua infância.
No mais, ela foi normal. Estela fazia parte de uma família de classe média média, do que pode se dizer que ela desceu um patamar no nível econômico-social, tendo em conta que ela, agora, pertence a classe média baixa, se esse tipo de termo for aceito, e tem que ser nesta história, pois é com ele que ela anda sendo trabalhada e, além do mais, o termo está sendo usado com um único e restrito sentido de consensualidade. Bom, que seja, ela, sim, desceu um patamar nesta área, mas elevou-se a um patamar espiritual ao qual nunca imaginou chegar, mas, assim como ela chegou nele, chegaremos nessa parte da história, que podemos chamar de epifania, mas que, na verdade mesmo, foi uma avalanche da problemática. Por enquanto, nos contentemos com a infância, que é essencial ao caso, um coadjuvante interessante para a trama. A infância normal que Estela teve foi bem divertida. Dos seus pais, não se pode dizer que eles a davam tudo, de fato não o faziam, pois criam que esse não era modo se criar criança, de se criar ser humano, mas é certo que a ela não faltava nada de essencial e que, vez ou outra, ganhava bônus, em aniversários e Natais. Num desses Natais, naquele em que tinha seis anos, ganhou um cavalo-de-pau, a quem deu o nome de Tempo, depois, retificou a escolha e o chamou Vento, mas, por fim, acabou chamando-o de Vendaval, que é um nome mais aventureiro, perfeito para um animal como um cavalo, mesmo que de pau.
Brincou bastante com o cavalinho, pois ela própria tinha um espírito aventureiro e um senso de liderança que lhe vem naturalmente e que a fazia organizar suas bonecas em grupos de expedições em demanda de tesouros. O trauma envolvendo o cavalo-de-pau só viria a ocorrer nove anos depois, quando, em plena adolescência, Estela arranjou um... Bem, há algo mais que não foi contado. Algo extremamente importante para a história, na verdade, é a chave da história. É o seguinte: Estela tinha uma irmãzinha da qual se orgulhava bastante. Aos quatorze anos, enquanto Estela estudava, a menina, de três anos, sempre a observava do outro lado da mesa. Um dia, quando Estela entrou no quarto da irmã, a viu lendo um livro de cabeça para baixo. Ela riu e mostrou para a irmã como era o certo, mas a menina tomou o livro de volta e começou a ler em voz alta, do mesmo jeito como segurava o livro antes. Estela ficou impressionada e, só depois, notou que a menina havia aprendido por si só enquanto observava os exercícios que a irmã mais velha fazia do outro lado da mesa, do lado contrário. Certo, agora, vamos de verdade à história.

O trauma aconteceu quando Estela arranjou um namorado. Daí em diante, ocorreu uma série de eventos comicamente trágicos, e a parte cômica, quando se repara bem, no final das contas, é triste. Com quinze anos, a pessoa já se sente na responsabilidade de fazer coisas para que talvez não esteja preparada. Com quinze e um namorado, Estela, desajeitada e inocente como era, decidiu transar com o namorado. É certo que foi mais uma decisão dele do que dela, mas ela acatou-a passivamente e até ofereceu o seu próprio quarto, no meio da tarde, enquanto seus pais estavam no trabalho e sua irmã tirava a sua soneca vespertina, para realizarem a primeira cópula de suas vidas. O rapaz, que já tinha dezesseis e um buço que parecia próspero, apareceu na casa dela pontualmente. Os dois foram para o quarto e começaram a se beijar deitados na cama, mas, uma brisa bateu e o cavalo-de-pau, que ficava ao lado do leito e que tinha os pés interligados como uma cadeira de balanço, começou a balançar. O rapaz olhou, fez cara de que não se importava e voltou a cuidar dos seus affaires, porém, novamente, uma brisa bateu e o cavalo balançou. Ele parou mais resolvido desta vez, levantou o corpo com os braços e passou um olhar periférico pelo quarto. Viu uma prateleira repleta de romances policiais, um armário de madeira, uma escrivaninha e outros objetos, tudo bem adulto, exceto pelo cavalo-de-pau, tão infantil. E o rapaz não suportava o infantil. "Você é muito menina", disse então a ela. "Mas, o quê?", respondou Estela. "Esse cavalo... é infantil". "É meu cavalo". "É besta". "Você acha?". "Eu sei". "É... acho que já não faz mais sentido guardá-lo mesmo, vou dar para a minha irmã depois". Falado isto, ela deu vários beijos no rapaz, como que fazendo menção de voltar para o que estavam a fazer, mas ele disse: "Agora, não suporto olhar esse cavalo balançando aí do lado mais do que eu vou balançar em você". Estela olhou assustada, interpretou o que ele disse como uma piada, até riu desconcertadamente, mas, enfim, notou que ele havia falado aquilo de uma forma um tanto rude. Mesmo assim, foi à porta da irmã, que não acordaria até meia hora mais tarde (tempo até demais para o rapaz terminar o seu serviço, se arrumar, comer alguma coisa da geladeira, cochilar no sofá e voltar para casa), escreveu um bilhete num daqueles bloquinhos amarelos oferecendo-lhe o brinquedo e colou-o virado de cabeça para baixo na testa do cavalo. Voltou para o quarto, entregou-se, esperou o rapaz se arrumar, acompanhou-o até a cozinha para ele se servir de algo para comer, permitiu que ele cochilasse no sofá e abriu a porta para ele quando ele saiu, deu-lhe um beijo, combinou com ele que se veriam em dois dias, voltou para a sala, deitou-se no sofá e, quando ela mesma ia começar a cochilar, ouviu os gritos afetados de alegria da irmãzinha, que lera o bilhete e já cavalgava. Estela, então, foi até a irmã, deu-lhe um beijo e perguntou se ela não queria ajuda para carregar o brinquedo para dentro do quarto, a menininha disse que era forte, mostrou o muque e arrastou, se esforçando um pouco, o cavalo para dentro do quarto. Estela, então, foi pôr alguma comida numa panela para cozinhar, quando o fez, o telefone tocou e ela foi atendê-lo. Era o seu namorado, que disse que não queria mais vê-la, ainda a achava infantil, e ainda disse que ela era ruim na cama. Chateada, ela correu para o quarto, trancou-o e pôs uma música alta para ouvir, cobriu-se até a cabeça nos lençóis e, de tanto chorar, acabou dormindo. Quando acordou, a casa estava pegando fogo. Correu para a o quarto da irmã e a viu arrastando o cavalo-de-pau para fora do quarto. Ela pegou a menina pelos braços e correu para fora, mas a menina continuou gritando pelo cavalo-de-pau, então, ela deixou a menina fora de casa e voltou para pegar o cavalo. Estela voltou com o cavalo, mas queimou-se nas costas, fazendo uma queimadura perfeitamente redonda de quinze centímetros de diâmetro.
A casa, cuja estrutura era toda de madeira, ao estilo de casas suburbanas americanas, muito na moda entre a classe média desta cidade na época, foi a baixo e, observando o acontecimento sob uma dor excruciante, ela viu surgir, por trás do que restou da sua casa, o Monte Negro, belíssimo no crepúsculo. Horas mais tarde, Estela descobriria que não foi a comida no fogão que provocara o incêndio, mas a curiosidade da irmã superdotada, brincando com fósforos. De toda forma, Estela se sentiu culpada, pois deveria estar vigiando a menina.
Então, esse foi o evento que traumatizou Estela para sempre. Dois anos depois, a sua irmã enjoaria do cavalo-de-pau, pois se interessaria ainda mais em ler, e ela o reaveria. A queimadura de Estela foi cuidada, pois, pouco depois do incêndio, uma ambulância, chamada pelos vizinhos, levou-a ao hospital. Duas marcas ficaram.

Em casa, Estela, com os olhos ainda vermelhos, ficou de frente para o longo espelho grudado à porta do seu armário. Torceu o corpo para o lado e tentou manter, ao máximo, a cabeça onde estava. Viu um terço da sua queimadura e sentiu-se perdoada por si mesma. Perdoou-se pelo fato de seus pais terem que comprar uma nova casa e viverem por muitos anos pagando-a, pois, pensou bem, "eles não tinham seguro. Poderiam, muito bem, ter evitado isso". Quanto àquilo que era pessoal e que foi perdido, também perdoou-se, o dia estava para isso. Perdoar.
Mas essa não era a história da vida de Estela. Houve, ainda, fatos mais marcantes, mas aquele era o único que deixara um objeto vivo – inanimado, mas vivo, de fato – para contar a história, todos os dias, até este último do qual falamos, no ouvido de Estela.

O que acontece é o seguinte: às vezes, não se consegue o que se quer. Estela queria, sempre quis, ser uma escritora de romances policiais à brasileira, de crime tupiniquim, mas o mais perto que chegou disto foi ser taquígrafa. A técnica da taquigrafia é muito interessante. Os taquígrafos são pessoas treinadas em um método que as permite escrever rapidamente, utilizando-se de símbolos especiais, que representam fonemas, e não letras. Estela trabalhava nisto, na Câmara Municipal da sua cidade, aquela em que nascera e que abrigava o majestoso Monte Negro, íngreme, alto, imperante, mas complacente.
Um dia – e, sim, esta é a história de como ela conseguiu a pensão vitalícia por meio da indenização. Vitalícia, pois sim! –, Estela acordou, fez, como de costume – e este costume, como bem sabemos, não iria esvanecer – seu café-da-manhã, incluindo o café forte que tomava sem açúcar, e saiu para o trabalho, tão acordada como qualquer outro dia. Chegou ao trabalho, na Câmara Municipal. Aqui, é preciso que se faça uma pausa para analisar o prédio da Câmara. É, de fato, necessário.

A cidade em que Estela mora, como já foi dito, é relativamente grande e, apesar dos problemas tão comuns em cidades deste porte, ela é estruturalmente bem arrumada, um pouco segregadora, mas bem arrumada. Cerca de trinta anos antes, os vereadores da cidade tiveram uma reunião de extrema importância. Tratava do crescimento desenfreado da cidade. Algo precisava ser feito, e o prefeito não se movia, então, os próprios vereadores se mobilizaram e forçaram o prefeito, através de um decreto, a reformar a cidade. O prefeito deu carta branca para os vereadores, em conjunto, cuidarem do projeto, mas este era, mesmo assim, uma obra atribuída ao Executivo. Eles, então, contrataram um engenheiro civil e arquiteto filho de um americano com uma brasileira e formado na Universidade não-sei-das-quantas nos Estados Unidos da América, segundo ele mesmo, o melhor país do mundo (por que não vai morar lá, então?). Este engenheiro-arquiteto, jovem e entusiasmado com o cargo que ganhara, decidiu criar uma região destinada à classe baixa, portanto, mais na periferia da cidade, relativamente perto do Lago Negro, criou uma grande “favela”, e uma região destinada à classe média média e alta e tirá-las da confusão de edificações, já que reformar o centro histórico da cidade, perto do monte, daria muito trabalho. Sobrou, então, para a classe média baixa, o centro histórico da cidade, junto ao Monte Negro, ao Lago Negro e à área cultural. Foi nessa época que os pais de Estela compraram uma casa na área das classes média média e alta. Essas casas, como já foi apontado, são feitas de madeira. Um número considerável delas, e não só a de Estela, incendiou, a maioria por causa do descuido dos moradores.
Pois bem, a respeito da Câmara, que neste processo não foi esquecida, o engenheiro-arquiteto criou um projeto magnânimo, faraônico!, para um novo prédio, em retribuição ao cargo oferecido a ele pelos vereadores. Contudo, muito dinheiro estava empregado na reformulação da cidade, mas isso não impediu os vereadores, ávidos para terem um novo local de trabalho, de tentar construí-lo.
O dinheiro que arranjaram quase deu, mas houve uma parte do teto que ficou inacabada, sendo, depois, terminada com material de pior qualidade. É aí que se volta à história de Estela.

A parte terminada com material de baixo custo ficava justo em cima do palquinho que suportava os dois taquígrafos que trabalhavam anotando reuniões importantes da Câmara.
Estela, quando chegou ao trabalho, cumprimentou a todos, tomou um copo d'água, foi pegar seu material de trabalho e, em seguida, subiu no palquinho e sentou-se diante de uma mesa, ao lado do seu colega, que, imediatamente, se lembrou que havia esquecido algo e se levantou e saiu. Neste momento, um pedaço de madeira de um metro e meio de comprimento caiu na mesa de Estela, em sua mão direita.
Criou-se um pânico, chamou-se um médico e, em pouco tempo, lá estava um, tratando dela. Levou-a para o hospital, tirou uma radiografia e teve que engessar a mão.
Alguns meses depois, ela tirou o gesso, mas descobriu que não podia mais mexer os dedos médio e mindinho, que ficaram rígidos. Estela não podia mais trabalhar como taquígrafa, pois perdera a mobilidade de dois dedos, essencial para a arte da rápida escrita.
Então, Estela entrou em processo contra a Câmara, que passou para a prefeitura, responsável legal da construção do prédio. Daí então, muitas coisas aconteceram, coisas difíceis de explicar quando não se é um advogado. Estela, por fim, ganhou sua modesta pensão vitalícia, que a permitia viver tranqüilamente sem trabalhar, mas sem muita regalia.

Após ter-se perdoado, Estela foi deitar-se na cama. Havia uma coisa, que diga, um homem, que não podia perdoar. Uma frase corria a sua cabeça de cima a baixo, de um lado para o outro, traçando, invisivelmente, linhas que formavam os mais incomuns poliedros hipotéticos e cerebrais que já se havia visto: "beleza é estado, não qualidade".
Foi com estes dizeres que um homem de quarenta anos abordou a jovem Estela, de apenas dezenove anos e meio naquela época, enquanto ela penteava os cabelos em frente a um vidro que refletia sua imagem.
"Como!?", foi o que respondeu Estela, que havia ouvido a frase, mas não a compreendido inteiramente. "Beleza é estado, não qualidade", repetiu o homem, dando mais ênfase às palavras, mas, ao mesmo tempo, sabendo que ela, novamente, não compreenderia. "Não entendi. O que você quer dizer com isso?". "Que beleza é estado, não qualidade", disse o homem pela terceira vez. Saiu. Encontrariam-se, os dois, quatro dias depois, quando Estela já havia entendido o que o homem quis dizer com aquilo.
Naquele dia, no dia em que se encontraria com o homem, Estela pôs sua mochila nas costas e saiu montada numa bicicleta da pequena casa em que, naquela época, vivia com os pais. Ia à universidade, onde estudava Letras, quando desgovernou-se e, antes que caísse de cara no chão, aquele homem que havia encontrado quatro dias atrás pegou-a, aparecendo do nada. Seu nome não será mencionado, em respeito a Estela, que não gostaria de lembrar-lhe, mas, naquele momento, seu nome era tudo que ela queria saber, até ele rudemente abrir a boca. "O estado da sua beleza ia mudar drasticamente". Era um elogio mascarado, mas Estela não viu desta forma e voltou para a sua bicicleta, com a cara fechada, já não querendo mais saber seu nome, mas ele interveio mais uma vez, com um arranjo de flores. Explicou que havia visto-a duas vezes passando por ali aquela hora e decidiu comprar-lhe flores e esperá-la passar alguma hora, para que as pudesse entregar-lhe. O homem levantou as flores em direção à moça, oferecendo-as. Estela, confusa, pensou se pegava, ou não, as flores, até que notou que havia se calado por um tempo considerável para deliberar, então, terminou por aceitar as flores, agradecendo-o com um sorriso tímido de espremer de satisfação o coração de qualquer pretendente, por mais Don Juan que fosse. Pôs os caules das flores para dentro da mochila, deixando à mostra as pétalas. Subiu na bicicleta e saiu em direção à universidade, sol a pino e vento forte, numa cena digna das mais belas peças da fotografia.
Para entender as intenções do homem com a entrega do arranjo de flores, é preciso retroceder no tempo em quatro dias, para o dia em que ele a viu pela primeira vez.

O homem estava passeando no shopping center que ficava na parte cultural da cidade, junto ao Monte Negro. Observava, de longe, uma garota virtuosa que contemplava o monte através do teto transparente do shopping. Em seguida, notou que ela virou para uma vitrine, puxou um pente da mochila que carregava nas costas e começou a pentear os cabelos. O homem lembrou-se de uma história que havia ouvido do seu avô, mas que era mentira pura, e ele nunca descobriu isso. O seu avô contou-lhe que aquele Monte, num tempo remoto, era chamado de Monte do Sol, pois todas as suas árvores enchiam-se de flores amarelas no verão. "Lindo, o Monte, meu neto, só você vendo. Hoje em dia... ele é impiedoso, olha-nos com aquele ar misterioso, que nos dá a impressão que vai comer-nos, como um buraco negro". Então, o homem pensou no hoje-em-dia por que passava e percebeu que as coisas mudavam. Resolveu alertar a moça. E foi o que fez. Depois de tê-lo feito e notado a reação confusa típica dos jovens, voltou para casa querendo mudar também, mas junto com aquela moça.
Dois dias após, caminhando para o trabalho, viu a moça passando de bicicleta. No dia seguinte, o mesmo aconteceu. No dia que sucedeu a este, decidiu esperá-la com flores na mão para dizer-lhe que gostaria de conhecê-la, sair com ela, beijá-la, casar com ela...
Foi a um florista. Começou a olhar as flores. Como eu não conhecia nada de flores, perguntou para o vendedor que flor era aquela – e apontou para uma flor azul, belíssima. O vendedor disse o nome, que depois o homem esqueceu, e disse que cada flor tinha um significado. "Esta, por exemplo, é uma flor para dar para doentes". O homem não se importou, achou bela e resolver pô-la no arranjo. Apontou para outra, mais escondida num canto. O vendedor disse que era flor para se dar em ocasião de morte. O homem adicionou-a também ao arranjo, a florzinha branca acinzentada. Escolheu, então, da loja, mais uma porção de flores com significado soturno, todas elas belas à sua maneira e foi esperar no canto da estrada onde havia visto Estela passar.
Estela passou, caiu e ele a pegou. Quando suas mãos tocaram o corpo da moça, achou que um calor subiria por elas e esquentaria o seu corpo, dando-lhe uma sensação de conforto e alegria que o retornaria à infância numa memória das mais edipianas, mas o contrário ocorreu. Sentiu um desalento. Resolveu, de toda forma, elogiá-la do jeito rude que só ele sabia fazer e, ainda, oferecer-lhe as flores. A demora dela para aceitá-las não despertou no homem nenhum sentimento, muito menos o sorriso que ela deu. Nada disso o afetou, estava desencantado. Percebeu que só tinha por ela atração física e resolveu, "já que estava lá mesmo", aproveitar para conquistá-la e levá-la para a cama. Estela pôs as flores na mochila e seguiu pedalando. O homem olhou aquela cena amarela de linda acontecer e não se comoveu, somente disse para si mesmo: "essa já tá pegada".
Sentia-se no direito de abusar dela. Segundo sua própria mente: ela havia-o desiludido

Durante o caminho que percorria para chegar à universidade, Estela foi percebendo que estava mais apaixonada pelo homem desconhecido do que usualmente se permitia fazê-lo e, entrando na sala de aula, esperando pelo dia de amanhã, quando provavelmente o veria na rua, sorriu e sentiu-se agoniada ao mesmo tempo.
No dia seguinte, de fato, sem combinarem, encontraram-se no mesmo lugar que no dia anterior. É certo que Estela chegou mais cedo, percebeu que o homem não havia chegado ainda, deu meia volta e se afastou alguns muitos metros, em seguida, retornou pedalando para o mesmo local, para parecer que aparecia casualmente. É certo também que ela repetiu o processo três vezes, até dar de cara com o homem.
Este terceiro encontro foi executado em cima de seduções pelos dois lados. Por parte de Estela, a sedução era sensual e, ao mesmo tempo, amorosa e, por parte do homem, canalha.
Estela faltou à aula e eles foram ao apartamento dele. Lá, o homem disse a ela que a amava. Nem precisava disso, a garota já iria transar com ele mesmo e ele sabia. Fê-lo mais como uma diversão sádica. Ao ouvir o que ele dissera, Estela vivenciou uma sensação particular, que já havia sentido outras poucas vezes: por um instante, suas narinas arderam por dentro, seu olho ficou molhado de lágrimas que não cairiam – não agora –, sua boca, involuntariamente, deu um sorriso meio fisgado e seu coração girou como um peão, com exceção que ele parecia que nunca iria parar. Beijou-o e fez amor com ele, enquanto ele fodia com ela.

Passaram-se meses, eles se encontrando na rua e indo para o apartamento do homem. Estela repetiu o período que cursava na universidade. O homem, enquanto não encontrava "nada melhor", continuou encontrando-se com ela.
O homem não queria arcar mais com os custos de transar com a mocinha, já não bastava o abuso, ele queria lucrar com isso. Disse a ela que estava passando por maus bocados e que não poderia mais se encontrar com ela, pois não tinha o dinheiro de ficar levando ela para a sua casa para comer e dar-lhe flores de quando em quando. Disse que estava prestes a ser despejado de seu apartamento se não arranjasse dinheiro em alguns meses. Estela, preocupada, quis ajudá-lo desesperadamente. Ele, então, mostrou-lhe um curso para formação de taquígrafos, oferecido de graça pela Câmara Municipal, que precisava de profissionais. O curso durava apenas dois meses e tinha cinco vagas a serem preenchidas. O melhor dos alunos ganharia uma bolsa. Estela concordou na hora em fazer o curso e, em dois meses já trabalhava na Câmara. Para isto, teve que largar a universidade.
Um ano se passou e o homem se sustentava do dinheiro da moça, que insistia em morar na casa dele, mas ele dizia que eles não estavam ainda prontos para algo assim e que ela era sustentada pelos pais e que o dinheiro que ela dava para ele mal dava para cobrir as despesas, avalie com mais uma pessoa morando com ele.
Mas há uma hora que a paciência estoura e, quando se começa a trabalhar, perde-se um pouco da inocência, pois vê-se o mundo mais como o mundo é. Estela, então, notou que estava sendo, de fato, roubada. Chorou muito e contou tudo para seus pais, tudo!, que tinha saído da universidade, que vinha se encontrando com esse homem etc. Então, seu pai, advogado, propôs que ela entrasse com uma ação na justiça para conseguir o dinheiro de volta e, caso ele não tivesse, o seu apartamento, que Estela vinha freqüentando há pouco mais de um ano. Foi isso, então, que ela fez e, depois de muita briga na justiça, onde adquiriu uma certa esperteza judicial que a ajudaria no caso do dedo quebrado, Estela conseguiu o apartamento do homem, que era, exatamente, aquele em que ela mora até hoje, em frente ao Monte Negro.
Mas não acabou assim, nessa história, algo mais aconteceu...

O homem recebeu uma medida cautelar, mas não deixou isso tudo passar em branco.
Numa noite, ele foi, com uma chave reserva que conservava, ao apartamento que antes podia chamar de seu. Chegou ao décimo terceiro andar e pôs a chave na fechadura, tentou girá-la uma vez, o suficiente para tomar consciência de que Estela havia trocado de fechadura. Então, deu uns três passos para trás e se projetou em direção à porta a fim de preterir a barreira daquilo que considerava inadmissível.
O barulho da colisão acordou Estela, que dormia no sofá da sala, pois não queria fazê-lo na cama onde construíra ilusões. De súbito, ela levantou-se e deu de cara com o homem, que já segurava um canivete armado e partia para cima dela, que desviou pulando no chão. Houve, então, uma luta tão embaraçosa que é difícil de descrever, pois o homem estava, na verdade, bêbado, e Estela, ébria de sono. O que se pode contar é o produto dessa briga, que foi um corte de um palmo na perna de Estela e uma queda de treze andares do embriagado homem, que, claramente, perdeu o combate para a delicada Estela. Ela chamou polícia e ambulância e esperou tudo se resolver. E tudo se resolveu eventualmente.

Da janela da cozinha, Estela não olhava agora o Monte Negro, olhava para baixo, para o pátio do prédio onde morava. Foi novamente ao espelho, olhou a cicatriz na perna, olhou, de novo, a queimadura, tentou mexer os dedos imóveis e pensou que as cicatrizes são lembranças muito piores que objetos, como o cavalo-de-pau, pois, deles, podemos nos desfazer, nos afastar, podemos queimá-los e destruí-los - é certo que sempre algo fica, mas há um certo alívio em despojar-se de algo concreto, mesmo que algo abstrato permaneça. Quanto às cicatrizes, elas ficam, no concreto e no abstrato, o importante mesmo é aprender a conviver com isso, como a moça acabara de fazer (cá está a epifania).
Estela voltou para a janela e olhou para cima, mas não para o Monte Negro, e muito menos para o céu. Olhou para cima, e só.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

a cidade toda branca

Desde não se sabe onde, o trem marchava carregando um punhado de gente.
Um observador, à distância, sentado num precipício, pronto para pular e acabar com sua vida, viu a fumaça cinza-escuro se aproximar. Esperou, por respeito, a Maria passar e, quando não havia mais nenhuma partícula acizentada no ambiente, jogou-se.
O maquinista, que estava distraido cantando uma música, se assustou quando um sagüi se chocou contra o parabrisas do trem. Colocou seu busto para fora do veículo, retirou o corpo do pequeno primata do vidro onde jazia e arremessou-o para longe.
Evaristo, cansado da viagem que já durava não se sabe mais quanto tempo, adormeceu e, logo em seguida, abriu os olhos, pois o trem havia parado. De um alto-falante, saiu uma voz rouca e grave pedindo para que os passageiros que descessem naquela estação colocassem os seus respectivos óculos escuros. Evaristo se levantou, jogou sua mochila vermelha nas costas e pôs na face seus óculos escuros de aros verdes. Foi o único que desceu do trem e, assim que o fez, teve seus olhos, mesmo que protegidos, ofuscados pela claridão da cidade, da cidade toda branca.

Saiu, então, da estação branca e passou por ruas brancas, praças brancas, onde havia bancos de sentar brancos e árvores brancas, casas brancas, com telhados, cercas, portas e janelas brancos, postes brancos, carros brancos, um mercadinho branco, bares brancos, um posto de gasolina branco e muito mais coisas brancas, tudo isso sem se deparar com nenhuma pessoa, branca que fosse!
Chegando ao fim de uma rua, Evaristo encontrou um orelhão branco, tirou um papel de um bolso de sua calça jeans e um cartão telefônico. Inseriu o cartão e, em seguida, retirou-o de onde o havia colocado, pois, na pequena tela apareceu os dizeres: "Cartão inválido. Favor inserir o cartão branco". Ele, então, ligou a cobrar e esperou a pessoa da outra linha atender o telefone. Uma pessoa atendeu, mas desligou em seguida, provavelmente pelo fato de a ligação ser a cobrar. Evaristo não desistiu e ligou novamente e, novamente, a pessoa atendeu e desligou. Fê-lo mais uma vez, jurando para si mesmo que seria a última, mas mais uma vez a pessoa da outra linha desligou. Evaristo coçou a cabeça, pressionou as têmporas com os dedos médio e polegar da mão esquerda, que não segurava o telefone, e telefonou pela, e agora estava convicto de que não repetiria o processo, última vez. O telefone mal tocou e foi atendido. Depois de esperado o tempo que decorre para ser identificado que é um telefonema a cobrar, a voz arranhada de uma mulher se manifestou.
"Alô."
"Alô, sou eu, Evaristo. Eu estou num lugar aqui onde tem um orelhão branco."
"Há um número considerável de orelhões aqui... e todos são brancos."
"Deixa eu ver, então, se tem alguma coisa aqui perto."
De uma panificadora, nesse instante, liberou-se um cheiro de pão francês quentinho e branquinho. Evaristo, então, aproveitou a pausa que, de qualquer forma, faria, pois tinha que olhar em volta para ver se achava um ponto de referência, para inspirar aquele odor que o retrocedia a tempos tanto remotos como recentes. E, por causa disso, nem notou que a panificadora era o ponto de referência, até que a mulher se pronunciou em elevado volume, tirando Evaristo do seu estado de comoção, sentimento recorrente no dia-a-dia desse homem de cinqüenta e dois anos.
"Desculpa, eu me distrai..."
"Hum... teve uma daquelas divagações?"
"Tive... e, ah! Tem uma panificadora aqui do lado, chama-se 'Panificadora'. Conhece?"
"Conheço! Fique na frente dela que eu tô indo."

Chegou a mulher num carro branco, tão branco, que ofuscava o que fosse ao seu redor, tão branco, que nem se podia saber de que marca era, poderia, até, ser um barco com rodas, e não se notaria, tão branco, que Evaristo, tentando olhá-lo diretamente, desejou estar usando um segundo par de óculos. Evaristo entrou no carro.
"Oi."
"Oi."
A mulher, com os cabelos organizados de forma esdrúxula e infestados de laquê, deslizou o braço por trás de Evaristo, tocou-lhe o ombro e deu-lhe um beijo na testa, marcando-o de batom branco.
"Como foi a viagem, Evaristo?"
"Insólita, no mínimo."
"Como assim?"
"Eu dormi e tive um sonho estranho. Eu sonhei que eu só falava com vocabulário refinado, o que provocava, em meio aos meus discursos, interrupções de pessoas sensatas a dizer: 'faça-se entender, homem!', ao que eu respondia, com ares ainda mais de filólogo: 'e você, faça como eu, deixe de lado a modéstia e agarre-se à soberba, que é a única coisa que nos resta neste mundo onde todos são nada'."
"Estranho mesmo, hein?"
"Estranho, mas não louco."
"De forma alguma, meu querido. De forma alguma."

Evaristo acordou. Estava numa sala toda branca com quatro lâmpadas fluorescente, em forma de bastões, cuja disposição no teto formava um quadrado. Sentou-se na cama, enxugou uma lágrima proveniente do sonho e levantou-se. Foi até a porta e tentou abrí-la, mas não conseguiu. Não gritou, não imediatamente. Foi até o lugar mais longe possível da porta, correu em direção a ela e colidiu-se com o empecilho entre ele mesmo e a liberdade. Não funcionou, pois a porta era muito pesada, então, foi aí que ele começou a gritar e, em seguida, ouviu gritos ecoando por todos os lados, mas estranhou o fato de nenhum deles se assemelhar à sua voz. Acalmou-se, então, e resolveu esperar. Os gritos cessaram e ele se deitou.
Às oito e pouco, a porta se abriu. Evaristo, deitado na sua cama com o cobertor puxado até o rosto, levantou-se calmamente e olhou curiosamente para o homem extremamente negro e para a roupa extremamente branca que usava.
"A gente vai tomar o café da manhã, tá certo?"
Evaristo balançou a cabeça afirmativamente.
Os dois saíram da porta e deram com uma rua branca, por onde caminharam por um tempo que Evaristo considerou longo.
"Você não tem carro?"
"Não, não... o 'carro' é apenas para os recém-chegados ou para os que estão piores."
"Piores como?"
"Você vai ver."
Mas o que Evaristo viu foi um banquete imenso armado em uma praça maravilhosamente branca, cheia de gente. Correu para arranjar um lugar e o homem negro foi atrás. Sentou-se e iniciou o desejum. O homem negro, que ficou em pé, andou uns passos para trás para conversar com outro rapaz que estava de pé. Evaristo aguçou os ouvidos e escutou a conversa que, pelo volume da voz, não parecia nem um pouco confidencial ou privativa, mas descobriu que era para ser, pois concernia a ele. O homem negro simplesmente negligenciou sua presença e falou a seu respeito como se o próprio não estivesse presente a três passos de onde ocorria a conversa. Foi isso que se disse:
"Tô cuidando do cara novo aí."
"E ele dá trabalho?"
"Não dá para saber ainda. Chegou ontem. Se bem que, até agora, não fez nada."
"E ele é o quê?"
"Meio 'esquizo', eu acho, mas, pelo menos, não é uma bicha como o outro de quem eu tava tomando conta."
Evaristo levantou os olhos, assustado. Bruscamente, virou a cabeça para o lado da conversa, mas, depois, decidiu disfarçar. Pôs mais uma colher de purê na boca e, rapidamente, levantou-se e correu. O negro, que ainda batia papo e estava de costas para Evaristo, foi alertado pelo colega e correu, perseguindo-o. Alguém jogou-lhe uma camisa de força e ele conseguiu alcançar o fugitivo. Murmurou umas palavras reconfortantes que acalmaram Evaristo, mas isto se deu porque, em sua cabeça, elas soaram assim:
"Está na hora de você se enturmar."
"Como assim?"
"Vista-se de branco, como nós. Cá tenho eu um paletó maravilhoso, impecavelmente branco."
"Isto não é um paletó."
"É, sim!"
E a camisa de força se transformou um paletó bem em frente a Evaristo que, com os olhos brilhantes, recebeu, de bom grado, a vestidura.
"Obrigado! Agora, faço parte da turma!"
"E você vai andar de carro!"
"Oba!"
O homem negro fez sinal para um rapaz que estava longe e ele, em seguida, chegou empurrando uma cadeira de rodas.

Enquanto Evaristo via a paisagem passar pela janela do carro, o homem negro empurrava a cadeira de rodas pelos brancos e repletos de quadros corredores do Hospital Psiquiátrico Bispo de Winchester. Chegaram, enfim, a uma sala. Dentro dela, estava a mulher com o cabelo estranho e cheio de laquê que ele havia encontrado no dia anterior. A sua voz arranhada riscou num quadro-negro as seguintes palavras:
"Vejo que está todo arrumado."
"Vejo que o seu cabelo, não."
O homem negro se intrometeu:
"É que ele não tem quase nenhuma noção da realidade, senhora. O seu cabelo está ótimo."
"E você acha que eu não sei?"
Virou-se para Evaristo.
"Evaristo, talvez você não saiba o que se passa no momento. Todo mundo tenta fugir nos primeiros dias, mas, depois, todos querem ficar aqui para sempre. A gente vai ter a nossa primeira conversa agora, ok?"
Evaristo continuou parado.
"A gente precisa conversar sobre realidade."
"A gente precisa conversar sobre o infinito."
"Pois bem, se é o que você quer, fale sobre o infinito."
"Certo. Eu tenho uma pergunta para você."
"Faça-a."
"Você acha que, um dia, nós descobriremos tudo a respeito do Universo?"
"Não, não acho."
"Certo, certo. Eu também não. Agora, você acha que existe uma quantidade limitada de conhecimento, ou você acha que ele é infinito?"
"Como assim?"
"Como é que eu posso explicar? Você acha que o conhecimento é como uma argola quebrada?, como se a gente pudesse descobrir tudo o que há nela, menos a parte que está quebrada, que foi perdida para sempre e que nós nunca poderemos encontrá-la? Ou você acha que ela é como uma linha com um ponto de partida, mas sem ponto de chegada? Como se houvesse infinitas coisas para se conhecer."
"Não estou certa de que entendi."
"Você acha que, um dia, nós não poderemos mais descobrir nada, pois tudo que há ao nosso alcance de descoberta já foi descoberto, restando, apenas, no mundo, aquilo que nunca descobriremos, ou você acha que não há alcance de descoberta, que uma descoberta atrai outra, até o infinito, e nós sempre teremos dúvidas novas?"
"Eu acho que não há limites de descoberta. Que, sempre, haverá novas coisas a descobrir."
"Mas você não acha essa idéia perturbadora?"
"Acho que sim... a idéia de que sempre haverá um vazio é, de fato, perturbadora."
"É, sim, mas não há vazio. O vazio há apenas na metáfora da argola."
"Não, não. O vazio da argola, que você quer dizer, é, apenas, estático. O vazio que eu quero dizer, o da linha, é um vazio que muda constantemente."
"Muda ou diminui?"
"Diminui, tá certo."
"Mas esse vazio não é infinito?"
"Sim, de fato."
"Como ele diminui, então? O infinito é, sempre, infinito. Não diminui."
"É verdade... então, só há duas respostas para isso."
"Quais?"
"Ou ele aumenta e diminui ao mesmo tempo, ou ele nem aumenta, nem diminui."
"Não faz sentido."
"Não é para fazer."
"Isso! Assim como a vida. A gente não precisa de sentido - de realidade - na vida. Assim, também, como no infinito."
"Hum, entendi o que você quis fazer aqui."
"Eu só falei do que você queria falar em primeiro lugar."
"É, só."
Pausaram por um instante. Evaristo respirou fundo e perguntou:
"Isto aqui é um hospício, né?"
"É."
"Aquela hora em que eu liguei do orelhão, eu liguei para você mesmo?"
"Não, para a sua mãe, você tinha direito a uma ligação."
"Hum... Vocês têm a voz parecida... E por que eu liguei a cobrar?"
"Vai saber!"
"E as ruas? São ruas?"
"Não, são corredores."
"E o trem? Eu vim de trem, não foi? Sempre quis andar de trem!"
"Não, você veio carro. Seu irmão te trouxe, te deixou aqui e foi-se."
"Por quê?"
"Você tem umas divagações e passa alguns períodos fora da realidade."
"Não vejo o problema nisso."
"E, agora, nem eu."

No dia seguinte, Evaristo não acordou, mas o dia acordou mesmo assim, e acordou frio e manchado de sangue. Não havia sangue literalmente, pois a mulher do cabelo desorganizado - que ficou com medo de perder clientes por causa da desmascaração da loucura - assassinou Evaristo, alimentando-o com um jantar envenenado. Mas é muito mais poético, muito mais irreal, pensar que, de manhã, na cidade toda branca, no quarto todo branco, na cama toda branca, jazia Evaristo, coberto com um lençol que deveria ser branco, mas era vermelho.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

persona

- Era um escritor famoso...
- Era famoso!? Ainda é.
- É... mas ele não "é" mais.
- Escritor?
- Vivo!
- Ah, é mesmo.
- Ele estava na praia naquele dia. Odiava a praia! Estava com a mulher, que o convencera a ir consigo e as crianças (duas: um menino, de sete anos, e uma menina, de quatro). Aí, então, ele sentado ali na varanda, olhando para o mar, não sentia nada de mais. Não sentia, assim como muitos que observam o mar, que a vida não existia, que ele não existia. Não considerava isso uma virtude, sentir a existência ou não da vida. Ele queria observar os problemas, daí seus romances serem essencialmente sociais e urbanos.
- Mas teve aquele...
- Aquele foi depois disso, né?... Bom, e então?... Ah!: da varanda, ele olhou para dentro da casa que alugara e viu conchas penduradas, sofás com estampas odiosas, seres-da-floresta decorando mesas, paredes arco-íricas... pensou: "as pessoas se sentem livres para serem bregas em casa de praia. Impressionante! Tudo o que elas não querem em seu lar, porque é feio, põem na casa de praia, onde acham lindo"...
- Olha, eu ouvi dizer que a casa era dele, e não alugada, mas o negócio é que ele não ia muito lá.
- Não, não, era alugada, mesmo.
- Certeza?
- Certeza! Se não, ele apenas pediria a mulher que não a decorasse daquela forma. Ele não era um frouxo, sabia muito bem defender suas idéias, seus pontos de vista e suas decisões, apesar de sua mulher fazer isso muito melhor. O fato é que, se o que a mulher quisesse fosse muito inadmissível, se fosse algo que ele odiasse, ele não aceitava. Ele odiava a praia, sei que é nisso que você está pensando, mas, aí, é outro caso: ele e a mulher tinham uma espécie de placar de cessões, então, como ela havia se sacrificado bastante durante a concepção do seu último livro, ele resolveu ceder e passar uma temporada na praia, lugar adorado pela esposa, que havia nascido e crescido em Maceió. E, depois de se lembrar o motivo pelo qual estava num lugar odiado, lembrou-se da mulher e do quão feliz ela deveria estar, foi nesse momento que ele voltou novamente seus olhos para a praia e viu a sua ainda jovem esposa e a cria, alguns metros afastados de onde estava sentado, brincando na água. Como se seus olhos tivessem um binóculo, ele viu (de forma que parecia que ele estivesse lá, bem pertinho) o dorso dourado da mulher, suas pernas torneadas, seu abdome bem definido de mãe que malhou muito para eliminar os efeitos lipídicos do pós-gestação, seus cabelos negros cortados ao estilo chanel, suas poucas e maravilhosas rugas recém-nascidas e seus seios pequenos, mas bem feitos. Fascinado pela descoberta de que sua mulher era ainda mais linda do que achava antes (e olhe que ele já a considerava a mulher mais linda do mundo), pegou um caderno e uma caneta que jaziam debaixo de sua espreguiçadeira e começou a escrever: "É impressionante as maravilhas que a luz faz nela, no corpo dela...".
- Peraí! Isso eu já li. Isso é daquele livro!
- Isso! Isso mesmo!
- O livro não-social, não-urbano dele.
- Aham...
- O último livro dele, o lírico, que lhe rendeu fama...
- Não, fama ele já tinha. Com esse, ele ganhou a imortalidade.
- Ah, então, ele "é" ainda.
- Hum... é. É! De certa forma... Bem, o livro que ele começou a escrever é bem particular de tudo que já se leu, dele e de outros. Ele é completamente descritivo, não há falas, mas, mesmo assim, há mais de vinte personagens e todos eles se expressam através de movimentos. E ele não apela, não diz, por exemplo, que o personagem estava "abanando a cabeça, como que quisesse negar aquilo que ele disse". Ele só descrevia os movimentos, detalhadamente, e, mesmo assim, o livro é bem entendível, compreensível. Não sei se deu para entender. Eu queria dar um exemplo... É que tem uma passagem... tem uma passagem que é a minha favorita. Deixa eu ver se eu encontro o livro aqui. Espera.
...
- Está difícil de achar. Será você poderia dar uma olhada nessa gaveta? Olha aí! Tá aí! Dá cá! Pronto, vou ler a passagem... A gente deveria estar com o livro desde o começo... Deixa eu ver a página... Aaaa-qui! Pronto! "Magnólia saiu de casa e o vento tocou docemente o seu rosto. O barulho dos seus saltos altos soavam num ritmo lento, de valsa, e seu assobio inebriava a rua, dava vida às baratas mortas e fazia crescer flores nos musgos do esgoto. Num dado instante, uma batida em contratempo invadiu a cena. Magnólia, sem notar, achou que era a música que tocava na sua cabeça, e não um som externo. Em seguida, o teque-taque que, notava-se agora, era de sapatos de sapateado, aumentou sua velocidade em duas vezes, depois, em mais duas e, por fim, os sapatos e os saltos pararam repentinamente, ao mesmo tempo. Magnólia sentiu um bafo quente em sua nuca. Seus saltos giraram cento e oitenta graus em torno do pé esquerdo e encontraram os sapatos do rapaz que quedava ali, respirando alto, com dificuldade. Ele abriu a boca largamente e fechou-a em seguida, fez este movimento repetidas vezes, lançando, ocasionalmente, perdigotos no radiante, porém assustado, semblante da moça. Ela, então, num movimento brusco, virou-se novamente para o lado da rua que encarava no momento anterior, mas o rapaz, apesar de sua aparência doentia, mais rápido que ela, pegou-a pelo braço esquerdo com a sua mão direita e puxou-a pela cintura com a sua mão esquerda, encostou seu peito nos pequenos, mas apetitosos, seios de Magnólia e fez sua mão se mover pela musculosa e feminina perna da moça, depois, fê-la subir, passando pela região pubiana, abdome e seios, até a boca dela, tapando-a fortemente. Empurrou-a para um beco sórdido, rasgou-lhe a roupa, abriu o zíper da calça jeans e penetrou impediosamente na alma da moça. No calor do ato, soltou a boca de Magnólia e deixou-a gritar. O som alto e estridente da voz da mulher e o barulho do sexo que faziam só aumentava o prazer do rapaz que, quando a mirava, era com as pálpebras meio fechadas e tremelicantes e com a boca que se contorcia quase imperceptivelmente, fazendo sons de gemidos que, na verdade, eram palavras pronunciadas pelo fervor do momento, e não por ele mesmo, mesmo sendo elas as exatas palavras que passavam por sua cabeça. O alarido da moça não adiantou para despertar (e esta palavra pode ser interpretada de várias formas) a vizinhança velada de noite".
- Interessante, interessante. Intenso! Mas, o que é que tem de lírico nesse livro, então? Nessa parte, pelo menos, não tem nada!
- Ah!, claro que não tem, ora! Espera... você não leu o livro?
- Na verdade... não.
- E eu te emprestei o livro e tu ficaste com ele por um tempão! Disse que tinha lido. Tu sabias até aquela parte... aquela que eu disse no começo... como era?...
- "É impressionante as maravilhas que a luz faz nela, no corpo dela...". É que essa parte é logo no começo. E eu comecei a ler, sim!, mas não terminei...
- Hum, certo, então. O negócio é o seguinte: o livro, quase inteiro, é lírico, não-social e não-urbano, assim como você já ouviu falar que era. Isso que eu li é quase o final dele. Magnólia volta para cidade depois de uma temporada na praia e é estuprada. Depois, ela tem complicações (acho que é uma hemorragia, não lembro), e morre.
- Mas ele começa o livro tão alegre! Para cima!
- É, mas, de novo, isso tem a ver com a história dele.
- O que foi que aconteceu, então?
- Bom... deu para perceber que ele se inspirou em sua mulher para criar Magnólia, né?
- É. Claro!
- Na época em que ele já estava terminando de escrever o livro (e, nisso, ele já estava de volta à cidade), ele descobriu que sua mulher estava tendo um caso com outro. Furioso, ele pegou o livro, que datilografava numa máquina de escrever, refutando os modernos computadores que, segundo ele, afetam o sopro de inspiração do artista, pois se pode fazer muito mais retoques na obra, o que leva os editores a incitarem o corte de algumas partes "desnecessárias". É tudo coisa comercial. Pois bem... onde eu estava, mesmo?
- Ele rasgou o livro! Como é que ele existe ainda, então?
- Ah, é. Calma... Pois bem, o seu melhor amigo tinha uma cópia, pois ele o lhe havia dado para que ele lesse. Não agüentava de ansiedade, era uma coisa completamente nova que fazia naquele momento e precisava de uma opinião externa. Então, o tal amigo o convenceu de terminar o livro, pois, mesmo que o final não fosse bom, o começo e o meio já o transformavam numa bela obra de arte. Foi aí que ele se refugiou numa praia sem nada dizer à mulher e terminou o livro, mandando a personagem principal para a cidade grande, matando-a e enterrando-a lá, enquanto ele, o autor, ficava enfurnado em uma casinha de pescador, pensando na verdadeira Magnólia, livre, agora, para transar com quem bem entendesse até, pelo menos, a sua volta à casa. Ah!, ele matou mais três personagens e danificou, para sempre, a vida de outros nove.
- Um assassino, quase.
- Um gênio também! Da literatura.
- E aí? Como foi que terminou?
- Como assim?
- Quando foi que ele morreu? Ele ainda estava na praia? Fez as pazes com a mulher? E os filhos dele, o que aconteceu com os filhos dele?
- Eu fico impressionado que você não saiba. Já disse: o livro se confunde com a história dele.
- Sim, e daí?
- Você não se lembra?
- De quê?
- Há quinze anos atrás, passou no jornal...
- Há quinze anos atrás, eu tinha oito anos, eu não via jornal, nem, muito menos, lia jornal.
- Ah, é mesmo. Por isso que você não se lembra. Há quinze anos atrás, apareceu no jornal que ele, Damião do Carmo, o escritor do livro, foi encontrado morto em sua casa na cidade, onde ele havia voltado a morar. Ele havia se suicidado. No livro, o personagem que refletia sua personalidade era um pescador que tem um caso com Magnólia durante todo o livro, mas que se suicida no final quando ela volta para a cidade com um outro rapaz da praia, um feirante forte e sem cérebro.
- Certo, e a mulher dele? E os filhos?
- Ah, eles estão bem, mas a mulher disse que, uma noite, quando ela estava voltando da casa dos pais, que fica do outro lado da rua onde ela mora, Damião apareceu usando sapatos de sapateado e disse a ela coisas como: "Vamos ter aquelas aulas de dança que você sempre quis!" e "Eu adoro a praia agora, volta para mim!". Ela respondia que tinha sido ele que a havia largado e passado três meses fora sem dar notícias. Finalmente, ela conseguiu se livrar dele, correndo para dentro de casa. Ele passou toda essa noite gritando "eu te amo" para ela. Dois dias depois, ela começou a ler o livro, que guardava na mesa de cabeceira, pois não teve tempo de ler logo quando comprou. Ficou assutadíssima ao ler aquela passagem que eu citei para você e falou com um advogado para entrar com um pedido de restrição contra o ex-marido. Este fato foi decisivo para o suicídio do já depressivo Damião do Carmo.
- E os meninos? Fala!, os meninos estão bem?
- Estão, sim! O menino está terminando o curso de direito e a menina estuda cinema. Ambos estão bem felizes. O rapaz tem uma namorada linda, baixinha, morena, muito gostosa!, e a menina anda fazendo uns filmes experimentais e botando em uns festivais aí, bem doidos... muito bonita, ela, também. Parece com a mãe.
- Você sabe de muita coisa a respeito desse cara, né?
- Eu sei muito de tudo.
- Como é que você sabe tanto?
- Está vendo, ali, o mar?
- Uhum.
- Agora, olha bem para lá e reflete: você acha que a gente existe mesmo?
- Como assim?
- Eu e você. Você acha que a gente existe, a nossa vida, ou será que a gente não passa de personagens?
- Eu acho que a gente existe.
- E eu, que a gente é personagem. Seria mais lógico. Isso tudo, nossa conversa, eu saber tanto. Seria mais lógico.
- Você deve estar certo, mesmo. Você sabe mais que eu.
- É. Eu sei.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

duas pernas, dois braços, um focinho

- Sabe, né?, que, depois que a gente se beija, a gente fica com um cheiro.
- Um cheiro?
- É. Um cheiro.

***

O rapaz estava ali, ela, aqui. Via-o de longe, por trás das folhagens, o pobre antílope indefeso carregando pelos cantos sua inocente maleta, indo de uma seção a outra. Era dele mesmo que ela gostava (então, pobre era ela, não ele), mesmo sem saber seu nome, mesmo sem nunca ter trocado palavra com ele, mesmo sem nem saber o que ele fazia na mesma empresa que ela, carregando aquela estúpida maleta de seção em seção. Ela não era tímida. Não falava com o rapaz porque notou, logo de cara, que ele era decente. Não queria que ele se decepcionasse com ela pelo seguinte motivo: ela não conseguia se manter numa relação. Não porque não queria, mas porque seus parceiros a estranhavam quando copulavam. É que, para ela, o coito era uma coisa animal mesmo, fora dos limites da lógica humana, e era por isso que, durante o ato, comportava-se como bicho: grunhia. Mas não começava já vigorosa. Haviam fazes por que passava. Não era como se o sexo se jogasse nela e tomasse posse de imediato, era mais como se ele se enrolasse nela, como se começasse de baixo, como uma cobra rastejando, subisse devagar até a sua cabeça e, ainda forte e sereno, dominasse até o seu último fio de cabelo, fazendo com que ela, a partir daí, gemesse baixinho, com uma voz fina, como passarinho recém-nascido, depois, passasse para algo mais alto e mais estridente, tentando chamar atenção, como um cão chorando, e, por fim, quando já estivesse toda enrolada de prazer, encarnasse todos os animais: porco, gorila, onça, baleia... Então, gritava, possessa, olhos revirados, corpo tremendo, pés e mãos contorcidos, calor se irradiando, fogo total! Depois, chegava a vez da respiração ofegante, do sorriso de satisfação, do esfriamento, do relaxamento, do esgotamento das energias. O parceiro ficava, então, olhando aquele bicho que havia se saciado, agora, dormindo. Aproveitava a chance e fugia para não correr o risco de ser engolido por acordar a fera, sem saber que, para acalmar a fera, bastava, apenas, ser mais brabo que ela.
Sempre que o pobre antílope passava por ela, pensava nisso e sentia que ele não daria conta do recado, não conseguiria ser mais brabo que ela na cama.

***

- Aaah! Cadê o chão!?
Bateu os braços, então. Bem forte. E voou.
Memória...
Cheirou o seio da mãe, que exalava o olor lácteo. Defecou em lugares e horas inimagináveis. Deixou de usar as quatro patas e passou a usar apenas duas. Brincou. Odiou as meninas. Apaixonou-se pelas meninas. Agitou pela primeira vez seu pênis com o único e exclusivo intuito de excitá-lo. Cresceu. Aprendeu. Vagabundeou. Namorou. Formou-se. Apaixonou-se perdidamente. Casou-se. Teve filhos. Achou que estava feliz e...
-Aaah! Cadê o chão?

***

Ali está a minha mulher, bem ali. Enorme, a bunda dela! Enorme! A barriga também, que ela está prenhe.
Atrás dela vai o resto do trem, a nossa cria, meia dúzia de moleques sujos e barulhentos.
Meu pai e minha mãe estão ali, ó, do lado direito. Não sei nem por que eles estão lá, entregaram-me ao mundo quando eu tinha apenas seis anos, não sei o que querem de mim agora. Justo agora! Eu até admito a presença da minha mãe, ela foi quem me deu de comer, meu pai, contudo, nunca trabalhou.
Meus amigos. Olha eles! Estou vendo uns bem safados, nos quais eu nunca confiei, não entendo por que compareceram, não vão sentir minha falta. Aliás, quem vai sentir a minha falta, só, é minha mulher, que está bem ali, com a bunda enorme, barriga enorme, cria enorme. Como ela vai alimentar esse bocado de gente, eu, sinceramente, não sei.
Inclusive, acho bobagem me enterrarem, deveriam me pegar para comer. Eu tenho um bom volume, dá para fazer um banquete razoável...
É... não dá para ver mais ninguém daqui, as nuvens atrapalham um pouco. Então, não tem muito mais que eu possa dizer, né? Não muito... acho que fico por aqui, então, e pronto e ponto.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

absoluto

Acordou com Réquiem, de Mozart. Achou estranho, esfregou os olhos e andou pela casa, procurando o som.
Chovia forte, muito forte.
Deduzindo que, de fato, o som não estava dentro da sua casa, mesmo sendo ele bem nítido, resolveu abrir a janela da sala e escutar de onde ele vinha. Quando o fez, o barulho se fez bem mais forte e violentou seus ouvidos sem lhe pedir licença. Apesar da violência da música, Olegário se sentiu bem, muito bem. Então, calmamente, andou em direção ao antigo piano do seu pai, pelo qual nunca havia se interessado, mas usava como decoração, e abriu sua cauda. Com os dedos, deu peletecos nas cordas e notou que, apesar de anos sem uso, do velho piano ainda desprendia um som harmônico. Fechou a cauda, sentou-se no banquinho e, depois de menos de cinco minutos mexendo nas teclas do instrumento, começou a acompanhar a música que vinha de fora e que não cessava, mas, depois de algum tempo nessa sessão, a chuva foi parando e, junto com ela, a música.
- Hum...
Fechou os olhos e se concentrou. Lá longe, a dois quilômetros e quarenta e três metros de distância, um prédio estava sendo construído. Bate-estaca, martelos, argamassa sendo jogada na parede, carrinhos-de-mão enferrujados, tudo isso fazia barulhos coordenados, notas, melodias, sons. Olegário, então, levantou-se e voltou para seu quarto, onde descansava seu violão, instrumento que, numa tentativa malograda, tentara aprender a tocar aos quinze anos para impressionar mocinhas. Abriu o armário e, no fundo, havia uma caixa preta. Pegou-a, abriu-a e tirou de dentro um violão impecavelmente novo, apesar de haver, naquele instante, mais de vinte anos. Sentou-se em sua cama, posicionou o instrumento sobre suas pernas e deu uma batida nas cordas. O som que ouviu o incomodou bastante, então, ele levou as mãos às tarrachas e, rapidamente, apertou umas e afroxou outras. Deu uma outra batida e estava tudo perfeito, assim mesmo, em poucos segundos. Então, copiou a sinfonia da construção no seu violão, ela flutuava, aumentava, diminuia, esticava e dançava, mas a base era a mesma, marcada pelo bate-estaca. Só parou de tocar quando os operários, todos, pausaram o trabalho para almoçar.
- Hum...
Foi para a cozinha para comer também. Abriu o armário de pratos e pegou um. Este bateu levemente em outros, que tiniram baixinho, mas, mesmo assim, afetaram negativamente os tímpanos do pobre Olegário, que acordara com um dom tão extraordinário quanto inconveniente. Abriu a porta enferrujada da geladeira e sentiu um calafrio, outro ainda maior quando a fechou, depois de pegar alguns ingredientes para uma sopa. Ligou uma boca de fogão eletricamente e se arrependeu disso, pois soa um barulho como que o de uma campainha quando ele a liga assim. E os barulhos quotidianos, tais quais arrastamento de cadeiras, goteiras e insetos miúdos caminhando, que no início do dia haviam lhe dado prazer, pois deles saíam acordes, agora, às duas da tarde, atordoavam-no. Ele cobriu as orelhas com as mãos, deitou no chão e ficou sem saber como reagir.
Deixaram-no absolutamente louco, seus ouvidos.

sábado, 25 de outubro de 2008

o dia, a dor

Queria, desejava, almejava, ansiava, precisava de um copo d'água, mas não conseguiu levantar-se, ficou na cama sendo chicoteado por uma dor de dente no primeiro molar superior do lado esquerdo da boca. Fez menção de olhar para o relógio que, habitualmente, se situava em cima da sua mesa de cabeceira, mas se lembrou que ele havia quebrado dois dias antes. Então, olhou para a janela e calculou que deveria ser ou cinco da manhã, ou cinco da noite. Decidiu levantar-se.
A dor de dente era forte e contínua, parecia que não dava para ficar pior do que aquilo, mas, a cada passo que ele dava, sentia a cabeça doer também, uma dor lancinante. Contudo, continuou, obstinado a chegar à cozinha. Parecia que não bebia água há anos. Abriu a geladeira, alcançou uma garrafa e pôs água bem gelada dentro de um copo que pegara, em seguida, engoliu tudo de vez e se sentiu bem melhor. Serviu-se novamente, mas resolveu, desta vez, beber mais calmamente, apreciando a refrescância do líquido. Levou o copo aos lábios e deixou passar um fio d'água por dentro da boca. O toque frio que sentiu no dente que doía o fez arrepiar-se, mas o sabor (sim, pois quando se está com muita sede, a água tem gosto) da água o fazia esquecer de tudo. Por fim, deixou o copo de lado e tomou o que sobrara direto da garrafa. Cambaleou um pouco, recompôs-se e voltou para o quarto.
Abriu o armário em busca de um paletó, encontrou-o ao lado do vestido vermelho de sua falecida mulher, o único que decidiu guardar para si, pois era o seu preferido. Afastou o vestido e pegou um paletó cinza meio fora de moda, antigo, mas conservado. Demorou muito tempo para vestí-lo. Quando terminou, pensou por que o havia posto. Não havia motivo. Na verdade, só o fez porque parecia correto fazê-lo. Olhou-se no espelho e se achou feio, não combinava com esse tipo de roupa, mas, para poupar o trabalho, decidiu sair assim mesmo. Seu dente ainda estava ruim, mas percebeu que a dor de cabeça passara. Ia ao dentista, o único da cidade.
Já era meio dia, soube disso porque viu no grande relógio de pulso que um transeunte carregava consigo. Porém, não aparentava meio dia, estava tudo meio escuro. Pensou que deveria ir ao oftalmologista após a consulta no dentista. "Insólito, o dia, e bata na boca quem disser que não está, porque isso é coisa de Deus querendo algo", era o que diziam os velhos que jogavam dominó na rua. Ele nunca havia notado que em cada esquina havia um grupo de senhores a jogar tal jogo, cada um deles diferente: um profético, outro, científico, outro, filosófico, outro, religioso etc. Porém, entre todos, parecia haver um consenso: o dia estava doido.
Seguiu uma rua estreita de casas geminadas de um lado e de outro. Sentiu-se um pouco claustrofóbico. Finalmente, chegou ao seu final. Estava, agora, na praça da cidade e o consultório era do lado oposto de onde se encontrava. Olhou para a direita e viu uma locomotiva: eram quatro cegos em fila indiana - cada um com as mãos nos ombros do da frente - sendo guiados por um paraplégico em cadeira de rodas. Não queria, mas riu. O paraplégico logo notou que o motivo do riso era a sua situação e, com os olhos, o amaldiçoou, como quem dizia: "eu te vejo, não pense que isto não pode acontecer com você, pois pode!, e vai!, talvez ainda algo pior!". Ele se estremeceu todo e, quando mirou os cegos, viu que todos observavam-no, cada um seguindo, com olhos que não viam, os movimentos tremelicantes do seu corpo, que corriam de cima para baixo. Envergonhado, correu para o consultório. Sentia que as pontadas de dor de cabeça voltavam agora, e mais fortes, e seu dente começou a doer mais ainda. Resolveu, portanto, correr mais rapidamente, mas as dores aumentavam, mais, mais, mais... Chegou!
Bateu três vezes na porta e ouviu o som reverberar na sua própria cabeça: era a dor, que ainda não passara. Bateu mais forte, três vezes novamente. Nada... resolveu tentar a última vez e, quando ia dar a segunda batida, ela se abriu. Seu rosto iluminou-se, tanto, que pareceu que o dia havia ficado claro também, mas não!, onde ele mora, os fenômenos naturais, mesmo os alegres, só casam com a desventura. O doutor o cumprimentou com um sorriso no rosto, mas, lamentando-se, informou-o que não poderia atendê-lo. Ele perguntou por quê, já que não havia mais ninguém à espera. O doutor disse que era o "Dia mundial dos dentistas" e que ele não trabalharia. Ele quis rir daquilo, mas só perguntou ao doutor, meio que zombando: "se hoje é o dia dos dentistas, não é, justamente, o dia em que você deveria trabalhar?". O doutor irritou-se e bateu a porta na cara dele. Ele ia reagir, mas leu na porta um papel que não notara, dizia: três de outubro - Dia mundial do dentista"; e, em baixo: "vinte e cinco de outubro - Dia nacional do dentista". Então, ele refletiu a respeito: "imagina se todos os dentistas não estiverem trabalhando hoje? Que absurdo, obviamente que isso não deve estar acontecendo! Esse cara é que é um vagabundo". Pegou o papel e guardou no bolso para vingar-se do dentista, pois ele havia batido na porta porque não vira o papel, mas haveria pessoas que veriam o papel e, então, voltariam para as suas casas sem bater, porém, sem papel na porta, todos que chegassem lá teriam que incomodar o doutor. Sentiu-se sagaz e bajulou a si mesmo mentalmente, pensando em vários elogios que diriam sobre ele se o vissem realizar tal façanha genialmente maligna. Depois, viu que tudo aquilo era meio bobo, sentiu-se criança de novo, quis voltar e colar novamente o papel, mas percebeu que estava gostando daquele sentimento infantil de vingança besta e, ademais, já havia se afastado bastante do consultório.
Inevitavelmente, pensou no paraplégico: "aquilo ali é bem um pai de santo, um filho duma puta que lançou uma macumba em mim, mas, deixe!, é só eu não acreditar, que nada acontece". Que azar, dor de dente justo no Dia mundial dos dentistas, o dia em que os dentistas preguiçosos podem se dar ao luxo de não trabalhar! Levantou os ombros e seguiu para o único bar da cidade, que também ficava na praça: "o negócio, então, é neutralizar a dor com uns copos de cachaça". Entrou no estabelecimento. O dono, que também era o barman, estava, como nos filmes de faroeste, limpando um copo com um pano. Não havia ninguém lá. Ele, então, pediu uma cachaça. O dono disse que não poderia serví-lo. "Agora deu... por que não?", ele perguntou. O dono explicou que eram ordens da prefeitura: "nada de bebida antes das seis, eles dizem, foi por causa da morte daquele homem na semana passada. O assassino e a vítima, parece, estavam bêbados e fizeram aquele espetáculo à luz solar de que todos lembramos, brigando e terminando a briga com um tiro". Ele disse que "isso é um absurdo! Todos sabem que eu não sou assassino". O dono respondeu que "ordens são ordens, perder a minha licença é que eu não vou, afinal, este é o único bar da cidade... ah, e nem adianta ir nos mercados, eles também não podem vender". Ele disse que queria ter bebida em casa, deu um murro na mesa e saiu aparentando mais revoltado do que triste, mas, na verdade, sentia-se mais triste, bem mais triste!, do que qualquer outra coisa.
Flanou pelas ruas da cidade e só lhe aconteciam coisas ruins: topou a canela diversas vezes, queimou-se numa barraca de tapioca, viu, pela janela de uma casa, a mulher do seu melhor amigo traindo-o, teve que fugir de um cachorro em cujo rabo pisara etc. E tudo isso em meio a uma dor que não acabava nunca! Teve uma idéia! Foi de casa em casa pedindo um gole d'álcool, pedindo uma bebida, mas todos que o viam, vestido em seu terno, que já estava todo rasgado devido aos maus momentos que passara até então, negavam-no qualquer coisa, até aqueles que o conheciam, com medo de ele ter caído numa vida de vadiagem.
Na praça, bateu na porta da casa do homem mais rico da cidade e repetiu o que vinha fazendo: pediu "uma cachacinha, ou coisa assim". O servente que o atendera nem pensou: simplesmente, o levou para fora de casa e deu-lhe uma rasteira. Ele, então, levantou o rosto e se deparou, de novo, com a locomotiva. O paraplégico olhava-o com uma expressão de reprovação. "Você, você, seu pai de santo, filho de uma puta do caralho! Você fez isso comigo", ele disse e, quando já havia se posto de pé, quando já levara o punho cerrado ao alto, quando já estava na iminência de soquear o deficiente físico, um dos cegos, o último da fila, despregou-se do trem e deu-lhe um murro, voltando, em seguida, a ser vagão.
Ele, caído no chão, viu, em sua frente, o dente, fruto de sua dor, junto com mais dois outros que nada tinham a ver com a história, só eram vizinhos do maldito. Olhou para o cego e, não se importando que aquele que o atacou não podia vê-lo mexendo a boca, articulou uma palavra sem que saísse som: "obrigado".
Fechou os olhos e sonhou com a mulher que havia morrido no passado e com um futuro sem dor de dente.